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Tornar-se um tenista profissional no Brasil é um grande desafio

Renato Miranda 01/01/2016 SERVIÇO
É inoportuno esperar que um novo Guga surja espontaneamente

por Renato Miranda

Este texto é inspirado nos jovens tenistas brasileiros. Especialmente aqueles do período da adolescência entre 12 e 18 anos.

Garotos e garotas que escolheram o tênis como esporte estão espalhados pelo Brasil, mas o roteiro das histórias pessoais é o mesmo.

Por um motivo ou por outro quando o tênis começa a fazer parte da vida dos jovens, muito despertam motivações de se aprimorarem e iniciam uma jornada de treinamentos e competições a envolver pais e profissionais.

Seja para testar seus talentos ou o desejo de vir a ser tenista profissional, jovens ainda em tenra idade experimentam uma jornada rica de experiências, recheadas de esforço, dedicação e muita disciplina a fim de suportarem as exigências e dificuldades do tênis brasileiro, para em seguida ou ao mesmo tempo vivenciar o tênis internacional.

Costumo afirmar em minhas orientações para pais e treinadores que o nível de motivação do jovem atleta é diretamente proporcional ao prazer no esporte. Quando se estabelece uma identificação do jovem com determinado esporte, interesses do mesmo são potencializados e então a necessidade de persistir no esporte se torna parte da vida.

Aderir permanente a um esporte está associado entre outros, aos motivos de aprimoramento de habilidades específicas, bem-estar (prazer em praticar o esporte!), ser reconhecido, liberar energia psicofísica (testar habilidades e relaxar!), se autorrealizar e fazer amigos.

Ademais quando os jovens avaliam e são reconhecidos (valor social!) pelo talento e se sentem bem no ambiente de treinamentos e competições, quase que naturalmente, traçam metas mais exigentes a fim de serem testados ao máximo para que desse modo possam vir a ser um profissional ou ao menos a tentarem vir a ser.

Lançados à realidade da competição e antes de vivenciarem o "mundo" do tênis, precisam vivenciar a realidade do tênis brasileiro. Primeiramente, os jovens atletas precisam aceitar uma rotina de vida que difere, e muito, com a rotina dos não atletas: treinamentos árduos (muitas vezes diários), certo isolamento social (muitas viagens, treinamentos e competições), pressão para cumprir tarefas escolares (em função da sobrecarga da rotina e ausência nas aulas em função de competições) e outras características de uma rotina dita diferenciada.

Especificamente os jovens atletas têm algumas questões difíceis para respostas rápidas e/ ou precisas que só o tempo providenciará a contento. Algumas dessas questões são:

- Será que tenho talento suficiente para estar entre os (as) melhores?

- Vou desenvolver fisicamente o suficiente?

- Minhas características psicológicas combinam com o ambiente competitivo do tênis?

Minhas condições ambientais me ajudarão a desenvolver (local da moradia, estrutura física para treinamentos, treinadores, apoio financeiro, outros)?

Muitos treinadores e atletas poderão ter uma outra lista, mas certamente poucas não terão as listadas acima. Note-se que para cada uma dessas questões daria um texto. Por exemplo, o local da moradia parece ser algo relativamente vago, mas jovens atletas sabem bem o que isso significa.

De acordo com a cidade que um (a) jovem atleta mora, este (a) possivelmente terá pouco ou nenhum (a) colega para treinar, principalmente no tênis feminino.

Jovens atletas começam a entender de fato que o Brasil é muito grande quando começam a disputar os torneios oficiais. As numerosas viagens longas e caras exigem um enorme esforço (físico mental e financeiro!).
Ao mesmo tempo poucas escolas se adaptam à realidade da vida esportiva de jovens talentosos e com isso se inicia um verdadeiro conflito entre família x escola x atleta. Seguir a rotina de tarefas escolares (em um sistema que o esporte e o jovem atleta não são valorizados) e adaptá-las ao treinamento esportivo é algo desanimador no Brasil.

Talvez essa realidade explique em grande parte o porquê de o Brasil ter poucos tenistas no circuito profissional mundial. É inoportuno esperar que um novo Guga surja espontaneamente. Não que isso seja impossível, mas é fundamental criar mecanismos de descoberta e incentivar novos talentos.

Como há briosos e corajosos jovens tenistas que enfrentam essa realidade, prioritário é criar e facilitar um ambiente com mais oportunidades, apoio e condições para o desenvolvimento pleno. É sabido que a jornada para o profissionalismo é realmente penosa, mas quanto mais o talento do jovem atleta seja aquilo que defina seu destino, e menos a precariedade da estrutura e condições esportivas gerais, melhor.

Somando-se a isso, ao incentivar a formação de técnicos com alta qualidade técnica, liderança, excelente intelectualidade e que transmita valores positivos do esporte, poderemos ter um cenário mais promissor para o nosso tênis. Mais praticantes e mais atletas talentosos, menos dificuldades e menos desistências!

 




Renato Miranda

Professor da Faculdade de Educação Física da UFJF; Mestre e doutor em Psicologia do Esporte (UGF); Especialista em didática e psicologia do esporte na Alemanha (Escola Superior de Esporte Alemã - Colônia) e Rússia (Instituto de Cultura Física de Moscou); Consultor de atletas em psicofisiologia (concentração, estresse. motivação e flow-feeling).



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