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A prática clínica na psicanálise

Luiz Alberto Py 01/01/2016 PSICOLOGIA
É triste constatar que a psicanálise se dividiu em escolas

por Luiz Alberto Py

"Quem sabe faz, quem não sabe ensina." Este dito cruel era freqüente entre os alunos da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil (atual UFRJ), localizada na Praia Vermelha, na época em que lá estudei. Na irreverência da juventude nos apegávamos a fórmulas que nos protegessem de idealizar excessivamente nossos mestres.

A vida me mostrou a correção desta idéia na medicina. Penso que também na maioria das atividades e profissões provavelmente existe uma dicotomia entre os teóricos, que se abrigam em suas torres de marfim cercados de milhares de livros, e os práticos, que metem a mão na massa e enfrentam o desafio diário de tentar corresponder às necessidades dos que os procuram. Como diz Chico Buarque há os que nasceram para enfrentar o mar e os que se sentem mais confortáveis confinados em seus faróis correndo menos riscos. Ambos são úteis e importantes. Triste é quando uns e outros, geralmente por insegurança, passam a se desmerecerem reciprocamente.

Freud envelhecido

Na área do conhecimento onde atuo – a psicanálise – por vezes surgem polêmicas em torno da maior ou menor relevância de tais e quais idéias, escolas, correntes, etc. A figura de Sigmund Freud, o criador da psicanálise costuma surgir como eixo destes debates. Como todo psicanalista, devo a Freud a invenção de minha profissão. Todavia, isto não me obriga a aceitar todas as suas formulações e a ficar submisso às afirmações oriundas dele. Afinal, ele morreu antes de eu nascer, e já passei há muito tempo dos 60 anos de vida. O otimismo nos obriga a imaginar que nos últimos sessenta anos centenas de pensadores geniais acrescentaram à psicanálise tantas inovações que o estudo das formulações freudianas ficou envelhecido.

Certa vez, durante uma palestra, me vi contestado por um jovem colega que afirmava que as reflexões que eu expunha estavam em desacordo com as idéias de Freud. Ocorreu-me dizer a ele que, da mesma maneira em que nas fábricas de aviões os engenheiros certamente pouco se importavam em concordar ou não com Santos Dumont ou com os irmãos Wright, eu, depois de cem anos do começo da psicanálise, não estava muito preocupado se os pensamentos de Freud se alinhavam com minhas observações clínicas.

Acrescentei que era muito possível que em alguma sala da Boing existissem fotografias dos irmãos Wright, já que os mesmos são considerados os pioneiros da aviação pelos americanos. Da mesma forma, em uma parede de meu consultório existe um belo desenho do rosto de Freud, o que não significa que minha reverência à sua genialidade me impeça de discordar de algumas de suas afirmações. Lembrei-me também de que em uma discussão com seu discípulo W. Stekel, Freud irritado chamou-o de “pigmeu”. Ao que ele retrucou que um anão sentado nos ombros de um gigante pode enxergar mais longe do que o mestre.

Quando estava estudando para ser psicanalista me afligia a quantidade de tempo que era dedicada a rever idéias que em nada me ajudavam na hora em que me encontrava com meus clientes no consultório. Foi acalentador ouvir falar de autores como Wilfred Bion e Emilio Rodrigué que se dispuseram a estudar o funcionamento mental do analista, em vez de se deter no lugar comum de esmiuçar apenas a mente do analisando. Constatei na prática a imensa utilidade de aprender a fazer minha cabeça trabalhar de forma a ser mais eficiente em minha tarefa, em vez de ficar teorizando incessantemente sobre as vicissitudes emocionais de meus clientes.

Depois, aos poucos, fui aprendendo que muito mais importante do que conhecer as neuroses de meus clientes era ajudá-los a aprender como administrá-las, neutralizá-las e com elas conviver. Em vez de me deter discutindo minúcias do pensamento de um gênio falecido há tanto tempo, prefiro tentar aplicar e desenvolver outras formas de ajudar as pessoas que me procuram e que em mim confiam.

Estou sempre em busca de novos instrumentos para melhor exercer meu trabalho e não tenho nenhum interesse em privilegiar uma teoria sobre outra, quero usá-las todas para minha atividade diária. Esta forma de encarar meu ofício tem me levado a investigar as mais diversas formas de abordagem dos problemas mentais e emocionais das pessoas na busca de ampliar as ferramentas de que disponho para melhor exercer minha profissão.

Como conseqüência, freqüentemente tenho sido levado a discordar de atitudes tradicionalistas de colegas apegados à maneira de trabalhar que aprenderam e que continuam a praticar, sem se disporem a ampliar seus conhecimentos. É triste constatar que a psicanálise se dividiu em escolas, correntes, igrejinhas, cada uma delas se proclamando a única, a verdadeira, a melhor e desvalorizando os que não a segue.

 




Luiz Alberto Py

É médico psiquiatra e psicanalista. Clinica no Rio de Janeiro e faz palestras por todo o Brasil. Publicou em 2002 o best-seller "Olhar acima do horizonte", em 2004: "A felicidade é aqui" e "Saber amar" todos pela editora Rocco. Mais informações: http://doutorpy.blogspot.com



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