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Pequenas ações podem dar sentido à vida

Fátima Fontes 01/01/2016 PSICOLOGIA
Exercitar a gratidão ajuda a dar sentido à vida

por Fátima Fontes

Introdução

"Quanto mais as condições de vida melhoram, menos os homens precisam uns dos outros. Ao contrário, até sua corrida pelo
autoaperfeiçoamento, fica entravada quando se ocupa dos outros. Ao passo que, numa sociedade em que não se pode viver só, ocupar-se dos outros é se proteger ."
Dr. Boris Cyrulnik, neuropsiquiatra e psicanalista francês. Livro: Falar de amor à beira do abismo São Paulo: Editora Martins Fontes, 2006, p. 24.

Queridos e queridas leitores e leitoras de nossa coluna Nós e Nossos Vínculos, como é bom estar outra vez nesse espaço de reflexão sobre os desafios e possibilidades de nossas relações interpessoais.

Para construção deste texto, busquei inspiração, mais uma vez, na dura realidade social brasileira, em sua fase de segundo mandato presencial da presidente Dilma Houssef.

Os números de desemprego nos horrorizam, as denúncias de corrupção se multiplicam, mas seus desdobramentos em termos de solução se misturam entre embargos, e libertações dos poderosos políticos e empresários corruptos que pela primeira vez, foram detidos pela polícia, já que são exatamente isso, casos de polícia.

E por falar em detentos, a nossa massa de pessoas encarceradas cresce dia a dia, daqui a pouco ganharemos de nossos coirmãos da América do Norte, em seu exorbitante número de pessoas aprisionadas. Por lá se prendem crianças e adolescentes, desde cedo, mas o número de atrocidades relacionais, nem por isso diminuiu. Mas vivemos o efeito espelhado, do que considero recuos das conquistas dos direitos humanos, por aqui, também no quesito maioridade penal.

Como nossos vizinhos do eixo norte da América, queremos trancafiar nossos meninos negros, pardos e pobres, sim, porque só eles são autuados em seus delitos, por esses lados, em proposta de política pública "dita de segurança" e que se mostra inversa às muitas outras, como às de cotas para negros, pardos e indígenas estudarem em situação de ingresso privilegiado.

Acresce-se a isso tudo, a falta de perspectiva para o futuro melhor dos filhos da classe média; realidade que tem feito os pais dessa classe social estender ainda mais suas extensas jornadas de trabalho para adquirir patrimônios para os filhos, que lhes garanta aquilo que os pais creem, eles não conquistarão por si mesmos. Isso obriga os pais a abandonar cada vez mais suas crianças e adolescentes, que crescem sem orientação, sem a presença de pais que lhes sejam modelos de virtudes e ética para a boa convivência e construção de cidadania. Resultados, entre outros: há um aumento do vandalismo e destruição do patrimônio público; incremento de pequenas e grandes violências; um aumento de consumo desenfreado de álcool e drogas, desde os dez anos de idade, pois eles crescem só envolvidos com a rota de fuga; tudo é muito chato para eles, e precisam se anestesiar para viver seus vazios, carências e tédios.

Ê mundinho complicado, será que conseguimos falar de amor nessas circunstâncias de perda de sentido para o viver?

Acredito que sim e quero compartilhar com vocês a minha concordância com o neuropsiquiatra e psicanalista francês Boris Cyrulnik, especialista em acreditar na força de superação que habita em todos nós, e que ele chama de resiliência. Apontarei algumas possibilidades de cuidarmos de nós e de nossos vínculos, exatamente porque atravessamos tempos muito difíceis.

Novos sentidos para o viver

Acredito, como Boris Cyrulnik, autor da epígrafe que abre nosso texto, que precisamos dar sentido ao nosso viver, e que quando esse sentido se junta ao prazer e à alegria de viver, a vida ganha um novo significado e se amplia para além de um vazio, ou de um prazer solitário individual e instantâneo, que quando acaba, deixa a vida ainda mais vazia e sem sentido.

E como dar sentido à nossa vida?

Boa e produtiva pergunta, que só poderá ser respondida por cada um de nós, em sua história de vida e em seus desejos, mas, até essa condição de gerarmos perguntas e de sermos capazes de encontrarmos respostas e caminhos, está se perdendo nos dias atuais.

Andamos terceirizando nosso exercício pessoal para solucionarmos nossos problemas. Vemos proliferar, em tempos atuais, as novas profissões e serviços prestados muitos deles voltados à solução de problemas pessoais, e um dos mais profícuos hoje em dia é o de "Coaching", a profissão ficou com o nome em inglês, e tem sua construção teórica e metodológica consistentemente elaborada, o que pode ser perigoso em relação a ela, contudo, é o fato de que às vezes esse profissional é requisitado para "tutoriar todos em tudo". Há demanda de Coaching para saber ser pai e mãe, para saber ser casal, para saber ser avós, para ter sucesso na carreira, para elaborar um plano de carreira, para organizar a casa, para organizar as finanças, para planejar o futuro e até para descobrir um sentido para a vida.

Podemos e devemos sim pedir ajuda aos profissionais habilitados para nos ajudar, mas há critérios para isso, e o maior deles, é o de não estarmos conseguindo, com nossos próprios métodos, e pelos caminhos que conhecemos resolver nossos conflitos. Precisaremos, para pedir ajuda, ter clara a nossa infelicidade e angústia frente aos nossos dilemas e levados por esses sentimentos, aí sim, seguramente a ajuda de profissionais com outros ângulos de visão, poderá ser muito bem-vinda e em muito nos auxiliar.

Então vamos colocar os neurônios para funcionar?

Precisaremos, numa proposta autodirigida de busca de sentido, gastarmos um tempo diário, para ouvir a pergunta-chave: o que quero que dê sentido à minha vida?

Para o que quero viver hoje, amanhã e depois de amanhã?

Com o que já sonhei, mas desisti de lutar?

Esse caminho de dar sentido à minha vida só passa por mim ou inclui outros?

Quero ampliar os raios de minha satisfação para auxiliar outros a se beneficiarem com o que dá sentido à minha vida?

Há uma regra de ouro no campo dos sentidos do viver: o compartilhamento de um projeto é necessário para a constituição de um sentido.

Gosto muito dos poetas, como sabem bem os que leem essa coluna ao longo do tempo, e há uma canção que pode nos servir de bússola, na busca de nosso sentido para o viver, trata-se da canção de Raul Seixas intitulada Prelúdio, assim diz a letra, "Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Sonho que se sonha junto é realidade". Acredito que qualquer proposta pessoal de dar sentido à vida, será bem mais ampla e realizadora quanto mais possa contribuir para minorar a dor daquele que está ao nosso lado, ou para torná-lo mais capaz de dar sentido à própria vida.

Desenvolva a criatividade e a partilha em tempos de desânimo

Agora chegou o necessário e importante momento do "como", e surge então outra pergunta para nos guiar, desta vez podemos elaborá-la assim: como, em nosso cotidiano, sobretudo a partir de pequenas ações podemos dar sentido à nossa vida?

Proponho inicialmente o caminho das pequenas generosidades como primeiro passo para dar sentido à nossa vida, que comporta atenções básicas para nós e nossos semelhantes, como saudar as pessoas com quem convivemos desejando um bom dia, uma boa tarde ou uma boa noite, desejando de coração que essas pessoas tenham bons momentos. Agradecer, elogiar, parar para ouvir o outro, são atos relacionais atenciosos e são importantes ingredientes que enchem as relações e a vida de qualidade e vigor e a vida de quem as pratica cheia de sentido.

Exercício de gratidão

Outro passo que proponho é o da gratidão, como é salutar e terapêutico nos aproximar de pessoas que celebram seu viver, celebram o ar que respiram, celebram a sua saúde, ou a falta dela, mas a condição de em algum momento ser ajudada, celebram a presença das pessoas em sua vida. Afinal, percebem que mesmo as que lhe fizeram mal, acabaram contribuindo para seu crescimento e aprendizagem, celebram suas vitórias e suas lutas, celebram as portas que se abrem e que se fecham para elas, pois acreditam que o melhor está sempre por vir e, que as tribulações que as cercam, as transformam em pessoas mais resilientes (que dão a volta por cima), mais fortes para lidar com as frustrações e perdas do viver.

E se atentarmos para essas duas propostas encontraremos um importante sentido na vida para fazer tudo isso, esse sentido não é outro, senão, o de viver para aprender, de viver para crescer e fazer crescer. É viver para dar sentido a cada fato ordinário ou extraordinário do viver, contribuindo assim para semear elementos de esperança por onde passam.

Eu aprendi, há alguns meses atrás, com minha irmã Fernanda, que se quisesse ter minhas orquídeas produzindo flores, deveria sempre manter um vaso com uma orquídea florida, junto daquelas que não tinham mais flores, pois assim o processo de polinização estaria assegurado. Se a orquídea sem flor precisa de outra florida, quanto mais nós em tempos de decepções, desilusões e desesperança?

Provoco então vocês leitores, a darem esses dois passos e a perceberem quantos outros serão capazes de dar, dando assim sentido às suas vidas e contribuindo, seguramente para minorar as dores e vazios daqueles que estão ao seu redor.

E para finalizar...

Chegou a hora de dizer adeus, mas esse é mais um até logo, até o próximo texto, com uma nova provocação reflexiva sobre nós e nossas relações.

Desejo ter deixado em vocês, no mínimo, uma curiosidade que poderá estimulá-los a testar a proposta feita, para que cada um, em seu viver procure dar sentido à sua vida, afinal esteja sua vida como estiver você carrega a centelha divina da promoção de sentido.

Ofereço a vocês, neste final, essa doce e provocativa canção do saudoso Raul Seixas.

Prelúdio

Sonho que se sonha só
É só um sonho que se sonha só
Mas sonho que se sonha junto é
realida ... de

 




Fátima Fontes

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008



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