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Crer e fazer: capacidade de amar e de renovar esperanças

Fátima Fontes 01/01/2016 PSICOLOGIA
Para tudo sempre haverá saídas

por Fátima Fontes

Introdução:
"Fui contratada há seis meses. Antes disso, a cidade nunca tinha tido um fisioterapeuta. E percebo que crianças que nunca tiveram essa estimulação realmente não falam, não andam."
Depoimento de mãe de criança de 8 anos portadora de microcefalia, fisioterapeuta e moradora do município de Normandia, em Roraima.
 

Queridas e queridos leitores da coluna, chegou dezembro e acabou o ano de dois mil e quinze, rápido, não? E o duro de mais esse período natalino e de celebrações, é que estamos vivendo momentos de muita dor e incertezas no cenário local e mundial: a perda do nosso Rio Doce, as vidas ceifadas pelo terrorismo "dito" religioso, e pelos movimentos que já se banalizam em nossos dias, como as guerras financiadas por superpotências, em "nome" de lutas democráticas, mas que sabemos se tratarem de cínicas lutas por domínios de riquezas materiais, que ceifam as vidas de crianças e seus pais, que compõem a sociedade civil e que nada tem a ver com esses interesses sombrios por maior enriquecimento.

Cenários mórbidos onde se somam o descaso com a nossa saúde pública brasileira, e que fez com que um mosquito ínfimo, transmitisse uma maldição para as grávidas de nosso país (pobres ou ricas e nordestinas ou não): a microcefalia de seus filhos... Lembrando também dos nossos grupos de extermínio, ou mesmo de uma polícia despreparada que segue dizimando adolescentes negros e pardos, e nos condenando a ciclos de ódio e ressentimentos eternos...

É de sentar e chorar, por horas e dias... Mas, essa jamais será minha proposta para ninguém, me agarro então, à experiência de homens e mulheres que viveram e vivem crises pessoais, e que não perderam sua capacidade de amar, de terem esperança e de fazerem movimentos transformadores, pessoais e sociais.

Com isso, desejo contribuir para que nos banhemos de paz e esperança, em tempos tão difíceis, e que como o profeta Jeremias, apresentado no velho Testamento da Bíblia Cristã, em seus muitos momentos de dor e crise, possamos trazer à memória, aquilo que nos dê esperança (livro bíblico: Lamentações de Jeremias capítulo 3, verso 21).

Crer e fazer - princípios transformadores

Temos sido bombardeados, à exaustão, por todas as formas de mídias, com notícias de sofrimentos e desgraças, mas se nos ativermos, com muita busca, também seremos capazes de conhecer histórias de homens e mulheres, e infelizmente, mais mulheres que homens, que não se dobraram em face de erros médicos, de erros das mais diversas origens e acionaram seus sistemas humanos de crer e de fazer e que assim viram suas realidades se transformarem, para melhor.

É o caso da fisioterapeuta Andrea Simões, de 39 anos, que há oito anos recebeu a "terrível" notícia de que sua filha Marianna, era portadora de microcefalia. Ela se negou a ficar chorando e maldizendo seu destino e o de sua filha.

Creu na proposta de reabilitação dessa criança, e resolveu fazer vestibular e cursar a graduação em Fisioterapia, inicialmente para investir no desenvolvimento motor, emocional e social de sua filha.

Mas sua experiência cruzou a sua porta e hoje, ela é a única fisioterapeuta contratada em sua longínqua cidade de Normandia, em Roraima. E tem visto e auxiliado outras crianças que perderam parte de suas capacidades de se desenvolverem, porque não há quem as estimule adequadamente a isso.

Outra mãe combatente diante do diagnóstico mais temido pelas mães do Brasil, em 2015, o de microcefalia de seus filhos, por uma série de más confluências, incluindo provável "erro médico" no momento do nascimento de seu filho Marcos Felipe Araújo de Lima, o Marquinhos, recebeu a sentença que dizia ser ele portador de microcefalia há 5 anos.

O quadro de seu filho era tão grave que, por meses, ele foi alimentado por sonda gástrica, pois não conseguia sugar, nem mamar. A partir de uma ano de idade, sua mãe guerreira, o levou para a reabilitação na APAE de São Paulo, e passou a celebrar, com grande alegria, cada pequena vitória do pequeno, e que hoje, quatro anos depois de iniciada sua reabilitação, já anda, pronuncia poucas palavras, e segue tendo uma mãe que investe e crê, que ele vai aprender a falar e em certa medida, ela sonha com alguma autonomia do Marquinhos para se banhar e se trocar sozinho.

Essas são história de crença e luta, mas há centenas de Marquinhos e Mariannas, e de suas mães valentes e amorosas e com elas nos inspiremos ao exercício fundamental, em tempos de sofrimento e comoção nacional e internacional, que é o de crer e de fazer.

Reclamar, maldizer e invejar - realidades que paralisam

Também somos cercados por pessoas "abutres e aves de rapina", que em momentos de mortes e dores, ficam voando ao redor da tragédia, se alimentando dos despojos, dos restos das tragédias.

E essas pessoas "urubus" são ávidas leitoras de jornais, tabloides de notícias, em todos os seus formatos: de papel, eletrônicos, veiculados por televisões, rádios, e que são todos patrocinados por grandes "marcas" que precisam vender seus produtos, e financiam a matéria-prima divulgada: quanto mais desgraça, dejeto, sofrimento e carnificina, melhor, pois mais venderão aos abutres de plantão.

Também de tristeza, sofrimento e dor vivem as grandes marcas de cervejas do Brasil e do mundo, afinal, precisamos nos "entorpecer" para suportar tanta coisa ruim, e para combater o "baixo astral" das coisas ruins que ocorrem, é vendido um mundo "fictício" de mulheres esculturais, segurando cervejas estupidamente geladas, e outras vezes os cenários ambicionados por quem jamais irá ao Caribe ou Bahamas e suas praias maravilhosas, afora os churrascos perfeitos realizados em mansões, com serviçais que fazem girar o "néctar dos deuses", ou vocês já viram alguma propaganda de churrascos feitos nas "lajes" de residências humildes, onde habita a maior parte de nossa população???

Mas já dizia o falecido carnavalesco Joãzinho Trinta: "Quem gosta de desgraça é rico, pobre gosta é de luxo e de riqueza", talvez ele tivesse alguma razão.

Mas não poderíamos deixar de falar neste tópico, da convivialidade nesses tempos: o assunto é sempre puxado pelas aves de rapina presentes, que já começam suas falas assim: "Vocês estão acompanhando as desgraças"? E discorrem, salivando, sobre os diferentes ângulos dos despojos, mortes, violências, doenças e outras porcarias que elas ruminam em suas existências doentias e paralisadas.

Sim, essa é a consequência de ser e conviver com as pessoas abutres, você entristece a um ponto tal, que perde a sua força de ação, você paralisa, fica tão impotente diante do que precisaria combater que se torna incapaz de ver saídas. Pior ainda: invejam os esperançosos, e desqualificam abertamente quem na roda "ousar" pensar em saídas, ou se mostrar otimista, apesar dos pesares.

Fujamos dos relacionamentos abutres, e os combatamos usando nossa alegria e força de crença e de ação, construamos um verdadeiro mutirão dos esperançosos.

Propondo um mutirão de esperançosos transformadores

Decidiram de qual lado querem ficar? A escolha é pessoal, e somos todos livres para fazê-la, ou bem nos postaremos como pessoas de esperança e de ação, ou bem faremos parte da turma do pessoal que se alimenta de despojos, e da desesperança.

Mas não cruzarei meus braços, enquanto vida tiver, lutarei para combater a galera dos paralisados e paralisadores, sou uma militante da esperança, e quero e uso todos os espaços que tenho para argumentar em defesa daquilo que acredito: desesperar jamais!

Para realizar essa ação éticopolítica, conto com muitas pessoas, que como eu, estão vivendo suas dores, decepções e revoltas com tudo o que de abominável está nos acontecendo, de um modo esperançoso e criativo, que não se dobram diante do complexo jogo das pequenas e grandes violências, e insistem em se esperançar, aumentando sua alegria e força de ação.

Insisto: eu e muitas pessoas acreditamos que para tudo sempre haverá saídas, mas isso precisa ser nosso estandarte diário, precisamos colocá-lo de forma segura, em nossos corações e mentes, falar disso em todos os lugares, essa é a nossa arma: nossa alegria e esperança, e que com ela incomodemos, irritemos e vençamos o mundo dos abutres desesperançados.

XÔ, XÔ gente ruim, vocês ficam fora de nosso cordão, bem longe do cordão dos que creem e fazem a hora acontecer, e que nos auxilie nisso a nossa Fé, no transcendente e no homem, e que não nos falte a inspiração dos poetas e dos artistas, que são nossa patrulha revolucionária de plantão.

E para finalizar...

Fazendo minhas, mais uma vez as palavras do poeta Ivan Lins, me despeço de vocês em 2015, cheia de vontade de que chegue o ano de 2016, para outra vez alimentar nosso mundo de ideias com um insumo que possibilite que nossas interrelações cresçam e se desenvolvam funcionalmente, abrindo espaço para um mundo vincular que expresse a cultura de paz que tanto ansiamos.

Desejo de todo o coração um feliz tempo de festas natalinas, regadas à celebração e um esperançoso ano de 2016, para todos e todas.

E que Ivan Lins nos inspire hoje e sempre!

Desesperar jamais
Ivan Lins
Compositor: Ivan Lins/Vitor Martins

Desesperar jamais
Aprendemos muito nesses anos
Afinal de contas não tem cabimento
Entregar o jogo no primeiro tempo

Nada de correr da raia
Nada de morrer na praia
Nada! Nada! Nada de esquecer

No balanço de perdas e danos
Já tivemos muitos desenganos
Já tivemos muito que chorar
Mas agora, acho que chegou a hora
De fazer valer o dito popular
Desesperar jamais
Cutucou por baixo, o de cima cai
Desesperar jamais
Cutucou com jeito, não levanta mais




Fátima Fontes

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008



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