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Por que fico tão irado quando meu time perde?

Regina Wielenska 01/01/2016 AUTOCONHECIMENTO
Frustração: estado emocional geralmente relacionado a situações de injustiça

por Regina Wielenska

Vira e mexe leio sobre gente que inicia atos de violência física contra torcedores do time oponente ou equipamentos urbanos (estações de trem e metrô, placas sinalizadoras, bancos do estádio etc.) depois que seu time foi derrotado no futebol. Na Inglaterra eram "famosos" os hooligans, e estes só tiveram sua ação coibida à força de muita ação policial e de condenações com penas rígidas.

Como surgem pessoas tão agressivas, atacando os outros com virulência, indiscriminadamente?

Em Psicologia raramente há como identificar um fator único que determine um fenômeno complexo. Ao contrário, esses padrões de comportamento geralmente são construídos através de uma história, a partir da vida no seio da família, escola e setores da comunidade.

Um dos prováveis fatores que facilitam o comportamento agressivo é ser afiliado a um grupo formal (associação de torcedores, por exemplo) ou informal (uma turma de amigos do mesmo bairro ou algo assim).

Raramente esses ataques são feitos por um único indivíduo. Estar em grupo, sentir-se apoiado por outras pessoas, serve de incentivo. Mas o que levaria tal grupo a cometer violências? Talvez agir agressivamente funcione como demonstração de "força" dos membros do grupo. Seu time perdeu, mas eles continuam fortes, a agressividade comprovaria isso.

Outra hipótese seria de que os agressores já manteriam alguma rixa, anterior ao jogo, com as vítimas da agressão. A briga seria especificamente um conflito de longa data entre gangues, e a pancadaria acabaria sobrando até para os que inocentemente estivessem inseridos naquele mesmo ambiente.

Frustração é um estado emocional geralmente relacionado a situações de injustiça, contrariedade e/ou perda. Se torcedores de um time se sentirem injustiçados, eles podem apresentar comportamentos agressivos que produzem algum alívio (temporário e pouco construtivo) para o explosivo desconforto. Esses indivíduos devem ter aprendido ao longo de seu desenvolvimento que a violência traz alívio e domínio em seu meio familiar ou social. Seria um processo de escalada gradual da agressividade.

Crianças e jovens são influenciados por frases como "homem de verdade não leva desaforo pra casa", "se te xingarem, mostre que você é homem" etc. Adicionalmente, aprendem por exemplos, observando que muita gente agressiva acaba sendo temida (isto é confundido com respeito). Concluem, infelizmente, que agir com violência pode ser solução valiosa num ambiente social permissivo com quem age de modo ameaçador.

Muitos dos agressores foram eles mesmos vítimas de agressões ao longo da vida e ao chegarem à idade adulta, com tamanho e força razoáveis, tornam-se violentos bastando, para tal, que encarem uma leve contrariedade. Agem desse modo, evitando serem agredidos como em tempos passados. Para ganharem ainda mais força, adquirem bastões, facas, canivetes ou armas de fogo.

A cultura da paz precisa ser cultivada nas famílias, escolas e outras agências sociais. Crianças precisam aprender a gerenciar conflitos por meio de meios não físicos. A ética e a justiça podem ser ensinadas por meio de fábulas, metáforas, exemplos, experiências que basicamente tragam dentro de si valores essenciais para uma convivência na qual imperem comportamentos justos, pacíficos e colaborativos, ao invés de brutais, violentos e opositores.




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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