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Sensação de insegurança e carência alimentam vaidade

Flávio Gikovate 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Ficamos inseguros diante das coisas que mais nos são relevantes

por Flávio Gikovate

À medida que crescemos, percebemos que fomos abandonados pelos deuses.

Não só nossos pais nos rejeitaram - segundo nossa interpretação para o fato de não terem sido mais onipresentes – mas também parece que fomos rejeitados também pelos deuses. Justamente quando nos preparamos para aceitar melhor o desamparo físico – infantil – somos forçados a nos deparar com o desamparo metafísico. E assim teremos que nos familiarizar com a consciência clara de nossa insignificância cósmica.

Nós que temos nome, que somos reconhecidos pelos nossos parentes, amigos e vizinhos não somos nada além de um grão de areia. Se pensarmos em nossa posição no universo, somos tanto quanto a formiga que distraidamente massacramos ao andar.

De uma forma geral, podemos dizer que durante os anos de crescimento físico e de abastecimento da razão, experimentamos vários reveses, várias interpretações que nos levam a uma visão negativa sobre nós e a vida.

Por causa dos desamparos, todos nós sentimos menos amados do que gostaríamos de ter sido, o que nos faz sentirmos inferiorizados em valor absoluto.

Além disso, à medida que somos capazes de fazer comparações, a inferioridade também se reforça por esta via. Ao percebermos que fomos desamparados pelos deuses, percebemos que nosso papel no universo é insignificante e que nossa existência em termos absolutos é irrelevante. E mais, percebemos a incerteza e a insegurança de nossa condição e a impossibilidade de nos defendermos de riscos futuros de dor e também da morte.

Somos e seremos sempre inseguros e impotentes diante das coisas que mais nos são relevantes. Em paralelo com essas constatações, fruto da inter-relação e combinação das informações que acumulamos até os 8-10 anos de idade, percebemos cada vez mais claramente como nos sentimos excitados, alegres e gratificados, quando nos exibimos, quando chamamos a atenção de outras pessoas, quando atraímos olhares para nós...

Isso é vaidade!




Flávio Gikovate

É médico psiquiatra formado pela USP em 1966. Foi assistente clínico do Institute of Psychiatry na London University. Em 45 anos de carreira já atendeu mais de oito mil pacientes. É escritor e palestrante. Assim como Erich Fromm, Carl Rogers e Erik Erickson, psicoterapeutas e escritores contemporâneos, dos anos 50 e 60, Gikovate tem tido sucesso em escrever textos sérios em linguagem coloquial. Seus livros já ultrapassam o milhão de exemplares vendidos. RIP.



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