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Home office: filhos sem limites prejudicam desempenho dos pais no trabalho

Ceres Alves Araujo 01/01/2016 COMPORTAMENTO
É preciso definir local de trabalho em casa

por Ceres Araujo

O home office, segundo Sérgio Amad Costa, professor de recursos humanos da FGV, veio para ficar. Trata-se de uma tendência irreversível, pois seu uso se dá por razões de ordem econômica e ela é propiciada pelo desenvolvimento da tecnologia da comunicação.

Em artigo publicado em um jornal paulistano de grande circulação, em 02/04/2013, o professor Sérgio Amad cita três motivos para a utilização do trabalho a distância.

"Um é que o home office possibilita reduzir o espaço físico da empresa, cujo custo do imóvel se torna mais elevado a cada ano. Outro motivo está ligado à questão da mobilidade dos profissionais no deslocamento de casa para a empresa. Finalmente há a globalização, que já exige o trabalho a distância entre membros da mesma equipe de profissionais atuando simultaneamente em diferentes regiões, aculturando-os a trabalhar dessa forma, economizando tempo, transportes e hospedagens para se encontrarem".

O home office, do ponto de vista da família, traz também muitas vantagens. Sem a perda de tempo que acontece entre a casa e escritório, a pessoa pode dedicar mais tempo às suas necessidades pessoais e a seu papel de mãe ou de pai.

Muitas famílias, porém, não estão preparadas para essa mudança. As queixas mais comuns dizem respeito à dificuldade das crianças da família entenderem que embora o pai e/ou a mãe estejam em casa, esse é um momento de trabalho e não pode ser interrompido.

Definir local de trabalho em casa

Escolher um local da casa para definir o local do trabalho, seja ele um escritório ou mesmo uma mesa em um canto da sala, ajuda a circunscrever um espaço, cujos limites físicos precisam ser respeitados pelos familiares. Entretanto, o que se observa é que, se a delimitação do espaço físico ajuda, ela não é suficiente. A pessoa que trabalha em casa costuma ser muito solicitada para resolver problemas da casa, dos filhos, para ajudar a fazer escolhas, para dar sua opinião a respeito de situações quase sempre não urgentes. Se a pessoa está presente na casa, ela tende a ser chamada sempre.

Os filhos demoram para compreender que o pai e/ou a mãe estão trabalhando em casa e não podem ser incomodados. Afinal, os filhos, na cultura de nossa época, costumam se julgar o centro do interesse dos pais e, então, como não podem ser atendidos na hora? Tal situação cria muita ansiedade nos pais, que se sentem divididos entre dois interesses: atender aos filhos e cuidar do trabalho, geralmente com perda de eficiência nos dois.

Colocar limites na criança desde cedo favorece desempenho no trabalho

O problema acima mencionado se remete à colocação de limites às crianças desde idades bem precoces, colocação essa que é falha em algumas famílias e mesmo ausente em outras. Quando os filhos não aprendem a tolerar limites, eles continuam a querer serem atendidos em todos os seus desejos de modo imediato. Querem ter os pais à sua disposição para tudo e não admitem concorrência. Os pais não podem conversar entre si, não podem falar ao telefone, não podem ler jornais, livros, revistas, não podem usar o computador e, lógico, não podem trabalhar! Fica, nessas circunstâncias, estabelecido um "filiarcado", no qual os filhos mandam e os pais obedecem.

Quando as crianças não brincam sozinhas, não sabem se entreter, elas precisam ter os pais sempre a serviço delas. Com os filhos agindo assim, os pais não conseguirão trabalhar, pelo menos de forma produtiva, em casa.

O aprendizado de se entreter sozinho é algo benéfico ao longo da vida. É evidente que os extremos não são adequados. A criança que se isola e apenas brinca só, tem possivelmente uma psicopatologia e a criança que sempre precisa do outro para brincar tende a se tornar cansativa ao convívio. O meio-termo é o desejável, o que permite estar junto, compartilhar o espaço, fazendo atividades diferentes.

Assim, a preparação para o home office não depende apenas de providências a serem tomadas quando tal forma de trabalho passa a ser exigida pela empresa. A preparação é muito anterior. Para que o home office seja, de fato, possível e benéfico para a família, a preparação já se inicia com a educação dos filhos desde bem pequenos.




Ceres Alves Araujo

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.



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