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Dá para agradar a todo mundo no trabalho sem se aviltar?

Roberto Santos 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Fórmula de sucesso: credibilidade é essencial

por Roberto Santos

Aos leitores que esperam um Plano de Carreira pronto e acabado em sua empresa atual ou naquela que está tentando atrai-lo, já recomendei nesta coluna para esquecerem para reduzir a frustração - veja aqui.

Plano de Carreira pode ser interpretado de duas maneiras: o plano que nós pensamos para nós, como começamos a explicar acima, e este ninguém pode nos impedir de fazer - ainda que esteja totalmente fora da realidade. Somos donos de nossos sonhos!

No entanto, o outro significado de Plano de Carreira é aquele documento bonito com datas definindo cada cargo que vamos ocupar nos próximos dez anos de nossa carreira com um empregador. Este Plano de Carreira acabou há décadas, mas ainda as pessoas entram nas empresas com a expectativa de um plano estruturado e garantido para sua carreira - doce ilusão. Esqueça!

Obviamente que todos temos planos na vida. Planejar é escolher prioridades para buscar recursos, alocar tempo e sentir que estamos dando um sentido a nossas vidas - uma necessidade básica dos seres humanos que nos diferencia dos primatas.

Carreira é o caminho que se percorre na vida e mais especificamente, se consagrou como o caminho que se percorre na vida profissional ou acadêmica e este pode ser mais sinuoso e esburacado para alguns e mais suave e estrelado para outros. Estas diferenças têm a ver com o "veículo" que estamos dirigindo nesta estrada, ou seja, nós mesmos.

Credibilidade e sucesso

Para se planejar este caminho de modo que nos leve mais longe, o ingrediente que devemos cuidar para não fazer falta em nossa fórmula de sucesso é a credibilidade.

A credibilidade que construímos desde os primeiros passos profissionais, seja como aprendizes ou estagiários, se apoia num tripé ligado por três condições interdependentes:

(1) a competência funcional ou técnica, ou seja, quão bons somos naquilo que escolhemos como nosso foco profissional;

(2) competências interpessoais, amparada pela inteligência emocional, que incluem a capacidade de influenciar, persuadir, negociar etc;

(3) os Valores, como respeito ao outro e os princípios de ética e integridade que norteiam as relações sustentáveis no longo prazo.

Como seres humanos, nos diferenciamos quanto a nossa motivação para nos destacarmos dentro dos grupos que participamos. Na ânsia de escalar mais rapidamente até o topo da pirâmide, há profissionais que se especializam em suas competências interpessoais, extrapolando as habilidades essenciais ao trabalho produtivo em equipe, como os citados acima. Eles e elas partem para a adulação crônica dos poderosos e a formação de panelas, de diversos tamanhos, para cozinhar as alianças que apoiarão seus propósitos. Essas panelinhas corporativas têm uma capacidade quase mágica de se transformar em frigideiras quando necessitam fritar opositores.

A credibilidade baseada fortemente nas competências interpessoais e funcionais, pode se sustentar, desde que amparada por valores essenciais de honestidade e ética, manifestados pela coragem de defendermos corajosamente nossas ideias, posições e princípios, mesmo quando desagradam chefes e figuras de destaque na organização.

Clarisse, uma leitora desta coluna fez, recentemente, um desabafo e uma consulta: "... tenho um perfil que muitas vezes as pessoas têm medo; não sei por que acham que sou rápida demais e posso tomar o lugar delas. Sou esforçada, aprendo rápido e mesmo assim tem colegas que fazem de tudo pra me prejudicar. É errado você ser verdadeira, batalhar pelo que quer e saber se impor com diplomacia? Sempre fui boa negociante, sou ética e mesmo assim ainda não entendo por que as pessoas se assustam comigo e sempre tentam me prejudicar. Tô muito chateada você pode me ajudar??"

Parece-me que a frustração que Clarisse enfrenta neste momento de sua carreira se relaciona ao dilema de equilibrar o tripé de sua credibilidade e, indiretamente, à possibilidade de ser bem-sucedida e feliz no trabalho.

Aparentemente, por sua descrição como muito competente profissionalmente (rápida para aprender e batalhadora), hábil em termos interpessoais (diplomática e boa negociante) e ainda, ética em suas relações, o tripé da credibilidade deveria estar sólido o suficiente para que seus colegas não se assustassem tanto com ela, a ponto de querer vê-la arder em uma frigideira. Então onde será que esse tripé está capenga?

Identidade e reputação

Nossa personalidade pode ser descrita do ponto de vista de nossa identidade - como nos descrevemos ou de nossa reputação, ou seja, como os outros nos percebem e nos descrevem. A dura realidade da vida é que somos julgados o tempo todo pelos outros, não pelo que pensamos e achamos sobre nós mesmos (nossa identidade), mas sim pela imagem que os outros têm de nós com base nas poucas ou muitas interações que têm conosco. Como aprendemos muitas vezes pelo caminho mais acidentado, nossa reputação pode ser muito diferente da nossa identidade.

Podemos nos achar leves, espontâneos e divertidos mas sermos descritos como imprevisíveis, desorganizados e pouco confiáveis. No mundo corporativo, é a reputação que conta para sermos contratados, reconhecidos, promovidos ou demitidos. Quando nosso autoconhecimento se limita ao que pensamos e achamos sobre nós mesmos, podemos ter "pontos cegos" sobre nosso perfil que abrem frestas no tripé da credibilidade.

Nossa amiga Clarisse pode se achar diplomática na forma que se "impõe" e negocia, além de ética em suas interações mas será que, consultados seus colegas, sua autopercepção seria confirmada? Sua competitividade que pode ser muito positiva para alavancar sua carreira, estaria de fato sendo percebida como ética e respeitosa?

Além disso, como já descrevemos em outros artigos desta coluna, todos nós apresentamos comportamentos disfuncionais quando estamos sobre pressão ou estresse. Nestas situações tendemos a exagerar em nossos pontos fortes que passam a ser vulnerabilidades em nossa reputação e acabam por provocar uma derrapada em nossa carreira.

Um dos 11 descarriladores de carreira que podem emergir nos momentos de estresse é a tendência de exercer em excesso nossa autoconfiança, assertividade e competitividade, fazendo com que pareçamos arrogantes e intimidadores para os outros, principalmente os mais juniores ou mais inseguros. Resultado: para se defenderem dessa intimidação, os colegas podem de fato se juntarem para conduzir o arrogante à frigideira dos narcisistas metidos.

E qual a saída para a Clarisse?

Se a fórmula da sustentabilidade e sucesso na carreira depende do tripé da credibilidade não baseada no que achamos de nossas competências e valores, mas sim da reputação que conseguimos construir, a saída é checar nossa autopercepção com aquela que os outros têm de nós, isto é, conferir se nossa reputação corresponde à nossa identidade ou se requer ajustes.

Além de ligar nosso radar social para captarmos de forma sensível os sinais verbais e não verbais emitidos pelos colegas, subordinados e superiores: isto é o primeiro passo. Porém, sabendo que poderemos ter lentes um tanto embaçadas nesta visão, precisamos pedir feedback dessas pessoas para saber se de fato nos veem como diplomáticos, ágeis, bons negociadores e éticos. É importante ouvir genuinamente e sem defensividade, para poder fazer ajustes em nosso comportamento.

A Clarisse poderia então questionar - então para agradar os outros menos competentes e competitivos, eu tenho que aviltar minha personalidade e deixar de ser eu mesma?

A referência ao tripé pode ser útil para essa decisão:

- O ajuste de meu estilo interpessoal trará benefícios ou prejuízos para minha carreira atual e futura?

- Minha competência funcional pode ser desenvolvida e mais bem avaliada se eu contar com o apoio daqueles que nos dão os feedbacks?

E mais importante:

- Meus valores - ética e integridade - estarão sendo abalados pelo reposicionamento de minhas atitudes e comportamentos?

Se um dos elementos deste tripé se desprender, a credibilidade pode despencar e a melhor saída pode ser a porta da rua. Entretanto, se tomarmos esta saída por arrogância ou indisposição para melhorarmos nossa reputação, os mesmos problemas se emergirão nas sucessivas tentativas de se encontrar a "melhor empresa para se trabalhar".




Roberto Santos

Profissional de Recursos Humanos, com mais de 40 anos de atuação no mercado, Roberto teve diversas posições como profissional e executivo de RH em multinacionais de grande porte. É sócio-diretor da Ateliê RH, consultoria com mais de 14 anos de atuação no mercado, e distribuidor Hogan no Brasil. Mais informações: www.atelie-rh.com.br



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