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Política: como cuidamos de nossa Casa

Monica Aiub 01/01/2016 COMPORTAMENTO
A sociedade em que vivemos também é a nossa casa

por Monica Aiub

Diante dos últimos e subseqüentes acontecimentos políticos de nosso país, muitos partilhantes (pacientes) e colegas sentem-se cada vez mais deprimidos, sem esperança, decepcionados, pois as expectativas de um bom governo e do exercício da ética na política vêm se tornando cada dia mais distante, talvez apenas quimeras...

O que fazer diante de situações extremas, que se apresentam fora de nosso alcance imediato, mas que interferem diretamente em nossas vidas? Como cuidar de nossa casa quando tudo parece uma grande confusão? Temos alguma responsabilidade sobre o que se apresenta neste momento?

A palavra grega oikos, que dá origem a ecologia, pode ser traduzida por casa. A casa que era, para os gregos da Antiguidade, o corpo, a morada, a sociedade, a natureza, muitas e a mesma casa, pois o equilíbrio necessário à saúde deveria apresentar-se em todas elas.

Há muitas e diferentes maneiras de cuidar de nossas casas, mas a falta de cuidado pode provocar acidentes imprevistos. Muitos de nós cuidamos do próprio corpo com muita dedicação. Também cuidamos de nossa moradia, deixando o ambiente agradável, prazeroso e saudável, de acordo com nossas necessidades. Se soubermos identificar essas necessidades, se possuirmos instrumentos para atendê-las, os resultados poderão ser muito bons.

Contudo, quando se trata da vida em sociedade, as formas de organização que construímos nem sempre são as mais adequadas, e parece que o grande problema consiste no fato de considerarmos tais formas como absolutas, ou ao menos, necessárias. Muitos pensam que não há como ser de outra maneira, que a natureza humana é assim mesmo.

Se considerarmos que fomos nós, seres humanos, talvez nossos predecessores, que construímos essas formas de organização, pode ser mais fácil vislumbrar possibilidades de construção de outras estruturas. Alguns afirmam não ser possível modificar uma estrutura, que apenas as maquiamos ou reformamos, mas a estrutura continua ali, presente, a mesma.

Tomemos como exemplo a lógica, por parecer dura, exata, inflexível, diante de um primeiro olhar. Um sistema lógico é um sistema formal. Todo sistema formal tem sua origem na tentativa de representação de um sistema informal, por exemplo, a partir de um discurso informal observam-se e simbolizam-se as relações existentes entre as ideias e, a seguir, lê-se a estrutura formal desse discurso, a fim de avaliar sua validade.

Susan Haack, no texto Filosofia das Lógicas, aponta a existência de, pelo menos, 15 diferentes sistemas formais, e demonstra que, dependendo do sistema formal utilizado, é possível considerar um argumento válido ou não. O problema, segundo ela, está no fato de confundirmos criador e criatura, e utilizarmos o sistema formal criado para representar um argumento informal como única forma válida de pensar o mundo.

Isso nos provoca a pensar que, ao fazermos uso de um sistema formal para organizar nossa sociedade, estamos trabalhando com algumas possibilidades, mas descartando muitas outras. Sendo essa uma opção, não haveria problema, pois estaríamos escolhendo o sistema mais adequado para responder a nossas necessidades. Mas ocorre que, diversas vezes, vislumbramos essa opção como a única possível, tratamos essa forma de organização como se fosse a própria natureza humana, esquecendo que fomos nós quem, um dia, a criamos.

Há uma certa tendência a apontar as dificuldades em cuidar de nossa organização política para o governo, os políticos, esquecendo-nos que todos somos seres políticos – afinal, a sociedade em que vivemos é também a nossa casa. Ações políticas implicam no cuidado com essa nossa casa, e com nosso planeta, assim como trazem também implicações para a saúde de nossos lares e de nossos corpos (compreendendo o corpo como totalidade mente-corpo).

Assim sendo, a responsabilidade por ações políticas não dizem respeito apenas àqueles por nós eleitos para nos representar. Se nos representam, cabe-nos tornar públicas as nossas ideias e necessidades coletivas, assim como exigir que suas ações representem o que, no papel, é denominado democracia. Para tornar a democracia um fato, nossa participação, assim como um olhar mais abrangente e crítico para os sistemas que construímos, são imprescindíveis.

Mais importante que isso é a maneira como estabelecemos nossas relações. Espanta-me ouvir a mesma pessoa queixar-se de como é explorada em seu trabalho e não querer remunerar adequadamente o porteiro do prédio onde mora; ou discursar acerca da ética e do humanismo e assumir posturas “desumanas e antiéticas” diante de situações cotidianas; ou ainda, corromper-se e calar-se por uns trocados, quando a situação exige posicionamento.

Michel Foucault, em Microfísica do Poder, aponta como forma de implosão de um macrossistema, a modificação das microestruturas que o compõem. Em outras palavras, se modificarmos nossas ações cotidianas, se estabelecermos nossas relações mais próximas de forma que possamos construir diferentes modos de ser, estaremos contribuindo para a modificação do todo da estrutura da sociedade.

Será possível estabelecer relações que valorizem o ser humano, a vida? Não um ser humano e uma vida ideais, inexistentes, mas o ser humano e a vida que somos e vivemos.

Pequenas atitudes, grandes movimentos




Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br



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