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Lembrar-se de fatos é apenas uma das inúmeras funções da memória

Elisandra Vilella G. Sé 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Memória saudável do idoso possibilita autoconhecimento e melhoria da autoestima

por Elisandra Vilella G. Sé

A memória foi por muito tempo considerada um depósito, um arquivo, um tipo de biblioteca, uma realidade acessível para que os conteúdos fossem recordados. Na verdade a memória está associada a um conjunto de funções psíquicas. Ela é um fenômeno em constante mudança em que esquecimento, lembranças, recordações, amnésia, lapsos fazem parte da vida e de preocupações advindas de práticas sociais e culturais.

Com o passar dos séculos, os auxílios à memória forneceram os termos e os conceitos com os quais raciocinamos sobre nossa própria memória.

Com o aparecimento da escrita houve uma profunda transformação da memória coletiva. A escrita permitiu à memória coletiva um duplo progresso. Primeiro, seria o ato de comemorar, que significa tornar os acontecimentos memoráveis, ou seja, imortalizar os seus "feitos" através das representações figuradas. A comemoração é a perpetuação de uma memória, significa perpetuar uma lembrança. E segundo o documento, o arquivo, que é uma forma de memória escrita, refere-se ao armazenamento de informações, que nos permite recordar, reexaminar e reordenar conteúdos. Todo documento tem em si um caráter de monumento.

A evolução da memória ligada à difusão da escrita depende essencialmente da evolução social e cultural. Assim, a memória é uma construção ativa de conhecimentos e experiências e não um mero registro passivo de informações e acontecimentos. E as lembranças nos ajudam a atualizarmos o que foi memorável. Por isso que rememorar é dar vida ao que foi vivido. Nós damos vitalidade aos fatos e eventos conforme sua relevância. A "essência" das coisas é aquilo que garante sua permanência. E o esquecimento é uma força de ocultação e encobrimento. Aquilo que não se percebe, não está presente, está oculto, no senso do esquecimento.
 

Além da função de armazenamento de conhecimentos, de fatos e eventos, a memória também é responsável por outras funções que envolvem fatores psicológicos que são as reminiscências, a revisão de vida, a história oral, as autobiografias, narrativas pessoais e manutenção da cultura e identidade individual e coletiva. Esses fatores significam lembrar de eventos históricos individuais e de uma sociedade. Assim temos as chamadas memórias, esse termo é utilizado para recuperar dados da experiência passada individual ou coletiva e são referenciados por crenças e valores culturais.

A acumulação de elementos na memória faz parte da vida cotidiana. Através das práticas sociais, culturais, simbólicas e históricas é que as pessoas se tornam pessoas. Nossas experiências com o mundo real, nosso contato com ele, nossa interação social permite nossa construção intersubjetiva. Subjetividade significa uma permanente constituição do sujeito pelo reconhecimento do outro. Então fala-se de intersubjetividade quando um interlocutor, uma pessoa, tem consciência da existência do outro e focaliza em conjunto com o outro, um mesmo fato, evento ou situação.

Por isso é que somos heterogêneos na nossa constituição. Nossas experiências são estabilizadas na memória episódica (de fatos e eventos), em forma de modelos culturais, quadros mentais, esquemas e scripts mentais, que estão sempre prontos para atender às necessidades comunicativas e de resolução de problemas. Cultura é conhecimento distribuído. A filosofia existe mais para guiar e conduzir reflexões do que para responder perguntas. A maneira como pensamos sobre as coisas, é a maneira como vivemos. As divergências não estão nos livros, estão nas pessoas.

As reminiscências são a recuperação de eventos passados, a lembrança de algo que ocorreu no passado. Já a revisão de vida envolve a reconstrução do passado mais a interpretação e análise de conteúdos que são reconstruídos. A lembrança é intencional, existe um envolvimento ativo da pessoa que está revisando a vida, há uma necessidade interna de autoconhecimento por parte do indivíduo. A revisão de vida tem uma função evolutiva em busca do equilíbrio psicológico. Significa recontextualizar os significados das experiências pessoais passadas e reconstruir esses significados.

A história oral é um método que consiste construir conhecimentos que pode ser utilizado por diferentes disciplinas. Na história oral os relatos de recordações são de fatos e eventos históricos e sociais. Tem função transmissiva e informativa com pontos de vistas pessoais sobre princípios e valores de uma época. A história oral leva os idosos a desempenharem papéis de testemunhos do passado. Segundo Olga von Simson, socióloga e pesquisadora do centro de memória da Unicamp, a história oral é a arte de recriar o passado.

Autobiografia significa o resgate de experiências pessoais ou profissionais. São memórias que podem abranger desde o crescimento ao amadurecimento com grandes temas sobre as fases da vida que são organizadas para compartilhar com um grupo. O acúmulo de experiências e de informações permite aos idosos alcançar elevado grau de especialização e domínio em vários campos das atividades humanas.

As narrativas pessoais referem-se à contagem de histórias por iniciativa do narrador ou por necessidade do interlocutor. Significa transmitir informações diversas, que podem ser contadas e recontadas e são estruturadas e moldadas. Cabem às narrativas pessoais relatos de marcos importantes da história de vida do narrador e tem como referência períodos históricos e sociais vivenciado por um grupo. Exemplo: Pessoas que vivenciaram um atentado terrorista e narram suas experiências durante esse acontecimento.

Existem funções psicológicas, sociais e culturais que se evidenciam nas memórias. São cinco as freqüentemente descritas:

Funções integrativas: tem o objetivo de construir o senso de integridade do ego, senso de significado pessoal, recordação de experiências que fizerem bem, envolve o saber lidar com perdas e a aceitação do passado sem arrependimentos.

Funções instrumentais: referem-se às lembranças de planos e de atividades com objetivos estruturados com o aproveitamento de experiências passadas para resolução de problemas atuais. É relembrar estratégias do passado para enfrentar desafios no presente.

Funções transmissivas: envolve as narrativas pessoais e a história.

Funções escapistas: incluem lembranças de cunho adaptativo, refere-se a dificuldade em reconstruir, reinterpretar e aceitar o passado, funcionam como mecanismos de defesa ou estratégias de enfrentamento de dificuldades atuais ou do passado.

Funções obsessivas: correspondem na excessiva reconstrução do passado em detrimento do presente e do futuro, geralmente acompanhados de sentimentos de culpa, vergonha, desapontamentos e ressentimentos.

Existem ainda outras sete funções das memórias na vida dos idosos

1-) Transmissão da herança cultural;
2-) Melhora da autoestima;
3-) Cumprimento de papéis sociais e de tarefas etárias, como por exemplo, de conselheiro e mentor;
4-) Aumento das oportunidades de contato, integração e reconhecimento social;
5-) Diminuição da ansiedade, culpa, vergonha, ressentimento e outros sentimentos negativos;
6-) Melhora no autoconhecimento e na auto-avaliação;
7-) Perspectiva de futuro e consciência da finitude - fim da vida.

Por fim, podemos dizer que o conhecimento é sempre uma modificação de conhecimentos anteriores. Conhecimentos são experiências guardadas na memória. Constantemente lembramos dos nossos scripts mentais. Estamos sempre invadindo esse tempo vivido. Lembrar é um processo de várias modalidades e é muito importante num mundo que está em constante mudança. E o esquecer não é o primo pobre do lembrar, não é fragilidade da memória, mas um processo de reelaboração imaginativa, isto é um labirinto de imagens que se projetam e estão em constante mutação, que ora recordações ocultas vêm à tona, ora ficam escondidas como se estivessem nas profundezas do mar. O esquecimento às vezes também ajuda a diminuir o peso do passado. Quando lembramos de coisas do passado deixamos outras menos iluminadas. Então o esquecimento faz parte da lembrança.

A imaginação tem um papel fundamental na reconstrução da memória. A experiência não importa tanto, ou seja, o que aconteceu no passado, mas sim como o futuro poderá ser reconstruído a partir do passado. A vida não é uma questão de tempo e relógio, o que importa é que por meio das funções psicológicas e sociais da memória, trajetórias alternativas de vida podem ser realizadas e refeitas. Valores são reconstruídos num presente. Estamos sempre preenchendo lacunas com o esforço da imaginação em busca de significados. Não existe o que está esquecido, haverá oportunidade de lembrar em outro contexto, em outro momento de outra forma, porque os restantes dos significados estão escondidos em nós.




Elisandra Vilella G. Sé

Fonaoudióloga pela Faculdade Tereza D'Ávila de Lorena (FATEA/USC) (1995), Mestre em Gerontologia pela Faculdade de Educação da UNICAMP (2003); Doutorado em Linguística - Área de Neurolinguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP (2011); Especialista em Educação em Saúde para Preceptores do SUS pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês (2013); foi pesquisadora visitante na Associação Alzheiemr Portugal em Lisboa (2013); Coordenadora da ABRAZ - Associação Brasileira de Alzheimer - sub-regional Campinas e Jaguariúna.



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