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Uma história de amor e de extremos

Regina Wielenska 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Nem todos os atos de proteção parental são o caminho da perdição

por Regina Wielenska

Alguns diriam que pais amorosos e competentes ensinam filhos a observar o mundo, tomar decisões, experimentar alternativas, praticar habilidades, entre outros aspectos.

Agora vamos pensar em algumas situações:

- Uma mãe devotada preparando um café da manhã caprichado pra um filho de 20 anos que todo dia se atrasa pra faculdade.

- O pai desse mesmo rapaz todo dia corre riscos e acelera ao volante, dando carona pro filho que todo dia está atrasado (por sinal, o rapaz estuda na direção oposta ao trabalho do pai).

- Esse filho perdeu a carta por extrapolar o limite de pontos estabelecido pelas normas de trânsito, porque dirigia feito louco pra chegar logo na faculdade, sendo que seus atrasos eram rotina.

- Passado um tempo, o rapaz aprendeu que não precisava ir regularmente à faculdade, desde que alguém assinasse por ele a lista de presença. Ele seduziu uma moça, ela caiu na lábia e agora se espera em forjar assinaturas.

- A moça das assinaturas falsas era bonita e se mostrava encantada com as palavras doces do jovem, e este, dirigindo sem carta o próprio carro, resolveu ir com ela a uma balada, bebeu um bocado e dirigiu, já com os sentidos alterados e a libido a mil. Transaram sem camisinha no motel mais próximo ("pra que usar isso, coisa de quem não confia no outro, eu confio em você, minha princesa...").

- Na volta, ele meteu o carro num poste, depois de atingir uma van. A moça morreu, ele fraturou o braço e quebrou o nariz.

- Os pais, desesperados, gastaram tubos de dinheiro com um famoso criminalista, que conseguiu um acordo no qual um montante de dinheiro evitaria o encarceramento desse quase engenheiro.

Alguém duvida que esses pais, desde o café da manhã no capricho, até a contratação do melhor advogado, não agiram movidos por extremo amor por seu rebento? Para eles, protegê-lo era essencial, oferecer o que de melhor houvesse, facilitar as coisas para que se forme e arranje uma boa posição na sociedade.

Mas vejam no que deu... Essa história poderia ir longe, o jovem talvez se tornasse um bem-sucedido executivo, capaz de corromper políticos em busca de atalhos quaisquer e muito dinheiro.

Certamente nem todos os atos de proteção parental são o caminho da perdição, muito pelo contrário, mas sugiro aos pais que observem com atenção a quais valores correspondem seus atos. Por exemplo, "você pode atrasar e contrariar regras que eu te quebro o galho", parece ter sido um dos ensinamentos que, sem perceberem, os pais transmitiram ao filho. Isso evoluiu em progressão geométrica e se generalizou para contextos mais amplos. E ai, deu no que deu...




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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