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Consumo de cocaína e crack na gravidez: consequências para o feto

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Taxas de consumo de cocaína/crack em gestantes variam entre 2 e 10%

por Danilo Baltieri

"Cuido de um menino de oito anos. Sua mãe usou crack e acho que cocaína também. O menino promete as coisas, mas esquece que prometeu; não guarda nada na memória; não sabe ler e escrever. Isso tem a ver com o uso de drogas na gestação dessa criança ? A mãe não quer saber dele e nem a avó. Ele sente muitas saudades delas, ele é muito agitado. Diga-me o que devo fazer?"

Resposta: Existem várias evidências científicas que revelam os malefícios provocados pelo consumo de cocaína/crack pela mãe sobre os filhos, seja durante a gestação ou após o parto. Seguramente, as mães que fazem uso de cocaína/crack deveriam ser tratadas com a máxima rapidez e efetividade possível, evitando consequências negativas para si mesmas e terceiros.

As taxas de consumo de cocaína/crack entre gestantes têm variado entre 2 e 10%, dependendo das amostras investigadas. Prejuízos sobre o crescimento, ganho ponderal (ganho de peso) e funções cognitivas (atenção, memória, concentração, inteligência) têm sido reportados em diferentes estudos.

Crianças que convivem com mães usuárias de cocaína/crack constituem um grupo de alto risco para futuramente tornarem-se também usuárias de substâncias. Essas famílias frequentemente vivem em lares estressantes, recheados de fatores negativamente relacionados com a formação e desenvolvimento de vínculos saudáveis.

Mulheres dependentes de crack frequentemente engajam-se em comportamentos de alto risco, expondo seus filhos a situações também ameaçadoras, vexatórias e permeadas por privações afetivas e econômicas. É importante ressaltar que mães usuárias de crack comumente padecem de outros transtornos mentais e de comportamento, como depressão, ansiedade e aqueles relacionados com o controle dos impulsos. Combinados os transtornos, os filhos estão expostos a um ambiente, a uma situação e a "cuidadores" que precisam receber intervenção rápida, eficaz e adequada.

O consumo de cocaína/crack pelas genitoras também traz um leque de diversos outros problemas que afeta seus filhos negativamente: situações de abusos, negligência, abandono físico, intelectual e emocional.

Estudos têm mostrado que filhos de mães com problemas relacionados ao uso de cocaína/crack estão em maior risco, quando comparados a filhos de mães saudáveis, de apresentar diversos problemas de comportamento, incluindo depressão, ansiedade e hiperatividade. Os cuidadores devem promover um ambiente o menos lesivo possível para tentar driblar estes problemas.

De uma forma geral, filhos de pais dependentes químicos, quando comparados aos filhos de pais saudáveis apresentam:

a) maior risco de abusar de substâncias psicoativas, devido aos componentes genéticos e ambientais;
b) início mais precoce de problemas com o consumo de substâncias psicoativas;
c) maior chance de sofrer abuso físico;
d) maior chance de abandono;
e) além do maior risco de sintomas depressivos e ansiosos, filhos de pais dependentes demonstram maior risco de experimentar sintomas de hiperatividade e de comportamentos desafiadores.

De qualquer forma, essas crianças devem ter o apoio de adultos interessados, atentos, pacientes e empáticos. Se essas crianças demonstrarem comportamentos inadequados, o auxílio de profissional especializado em psicologia e psiquiatria da infância e adolescência se faz amplamente necessário.

Estudos têm de fato mostrado que crianças que recebem permanente suporte de adultos cuidadores apresentam:

a) melhora das habilidades sociais;
b) melhora da autoestima;
c) melhor habilidade para estabelecer e manter relacionamentos saudáveis;
d) melhor capacidade para expressar sentimentos e lidar com situações desfavoráveis.

Situações como essa são extremamente desafiadoras. É importante que você tenha apoio de outras pessoas interessadas de fato em ajudá-los.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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