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Prepare um ambiente seguro para o portador de Alzheimer

Elisandra Vilella G. Sé 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Elisandra Vilella G. Sé

Vou abordar aqui estratégias e medidas que podem ser utilizadas pela família em casa, para preparar um ambiente seguro para a convivência com o paciente portador de Alzheimer.

Já explicitei aqui no Vya Estelar como que se configura o curso clínico da doença, que ela pode ser dividida por fases, de modo que numa fase inicial a pessoa pode levar uma vida independente e é capaz até de compensar suas perdas.

A pessoa é capaz de desempenhar suas atividades de forma satisfatória, mesmo com as falhas de memória bastante presentes. Ela pode também ter alterações de comportamento e que tem um impacto na convivência familiar, precisando o cuidador familiar ter um bom conhecimento da doença, seus sintomas, curso clínico e tratamento para poder lidar com as consequências dos sintomas.

Com tanta variabilidade de sintomas, de alterações e de comportamentos apresentados pelos pacientes, não é difícil imaginar as preocupações com segurança de acordo com cada estágio da doença.

Dessa forma, abordarei cuidados de segurança no ambiente que devem ser implantadas na medida que a família for percebendo sua necessidade. Embora todos os pacientes numa fase intermediária apresentem certo grau de dependência e não podem mais viver sós, a variabilidade das alterações de comportamento sugerem adaptações por parte da família.

É importante ressaltar que estar atento ao idoso quando esse se encontra em situação de riscos que muitas vezes fazem parte de seu cotidiano. Alguns hábitos no decorrer da vida, são mais difíceis de serem modificados. As modificações ambientais ou de hábitos que ocorrem bruscamente ou que forem impostas por outras pessoas, podem trazer consequências nos relacionamentos com a pessoa idosa. Portanto, deve-se demonstrar os riscos e adaptar o ambiente, solicitando a participação do idoso, fazendo com que a pessoa perceba os riscos e necessidades de tornar o ambiente mais seguro.

É importante lembrar que todas as medidas precisam ser adotadas tanto para os riscos e perigos no interior da casa e também no exterior. Para o ambiente externo é sempre bom manter a entrada da casa bem iluminada, isso evita quedas. Se o idoso for for lavar calçadas ou aguar plantas tomar precauções, como uso de botas de borracha para não escorregar em pisos escorregadios.

Mantenha material de jardinagem que forem perigosos, trancados. As pontas e cortes afiados em instrumentos grandes facilitam muito acidentes. Cerque a piscina e mantenha o portão fechado quando não estiver em uso. Mantenha pesticidas, defensivos e produtos para limpeza pesada trancados, isso não significa obrigatoriamente, instalar fechaduras em todas as portas de gavetas de armários. É que as pessoas com a doença de Alzheimer, devido à confusão mental estão mais sujeitas a ingerir produtos tóxicos.

Elimine todas as plantas tóxicas ou venenosas, ou cujas folhas podem ser irritativas ao contato, procure também evitar plantas com espinhos. Tome cuidados com degraus, de preferência utilize rampas no quintal e procure eliminar buracos ou saliências no acesso à casa ou ao quintal. Avalie a presença de animais domésticos no exterior da casa, como por exemplo cachorros grandes, pois esses poderão até mesmo numa bincadeira provocar uma queda do idoso.

Apartamento

Caso more em apartamento, esteja atento ao acesso às escadas e elevadores. Informar os funcionários do prédio sobre a condição do paciente e como poderá proceder no caso de o paciente pegar o elevador desacompanhado. Caso haja piscina, verifique como é o acesso. Verifique na portaria como é o controle de saída para a rua. Informar os funcionários que pode haver problemas de comunicação com o paciente. Se houver desorientação, explique que não pode deixar a pessoa sair desacompanhada. Coloque redes de proteção em janelas, sacadas e terraços. É muito comum as pessoas com doença de Alzheimer perambularem pela casa e na área externa e não calcularem adequadamente a distância, têm dificuldades para caminhar e distraem facilmente.

A perambulação é um sintoma bastante comum e manifesta-se como tendência a andar sem um objetivo definido. Esse sintoma é bastante variável e existe tratamento medicamentoso para isso, mas as precauções devem ser tomadas.

Alguns pacientes podem andar dentro de casa, no mesmo cômodo e outros tendem ir para a porta em direção à rua, e se não tomar cuidado, o paciente poderá abrir a porta, sair de casa e perder-se na rua. Então é preciso manter fechado as portas de saída e guardar as chaves onde não fiquem visíveis. Habitue que o paciente esteja sempre com uma pulseira de identificação, com seu nome e telefone ou cartão com informações na carteira ou bolsa.

Quanto às precauções no ambiente interno é importante que mantenha o mais livre possível, porque é muito comum explorarem o que estiver à vista. Coloque protetores nas quinas dos móveis. Coloque tampas de encaixe nos interruptores e tomadas elétricas. Mantenha objetos pequenos (ex. carretéis e bibelôs pequenos) fora do alcance. Mantenha equipamentos como ferro de passar, máquina de costura e ferramentas elétricas sempre em locais seguros e desconectados.

É aconselhável não encerar o chão para evitar que fique escorregadio. Pisos escorregadios podem ser melhorados colocando-se pequenas faixas de lixa de parede, com as partes ásperas voltadas para cima, nos locais de passagem, ou usando tintas antiderrapantes. Evite o uso de tapetes, principalmente com bordas salientes. Evitar ambientes escuros, verifique se a iluminação é suficiente. É preferível que coloque nos corredores luzes automáticas, os telefones de preferência sem fio.

Use corrimão em escadas e no banheiro. Evite o uso de chinelos soltos e solas lisas. Mantenha o ambiente ventilado com janelas abertas, mas com cuidados. Tenha em casa nos móveis portarretratos com fotografias nítidas da família e da pessoa que está com a doença. Mantenha calendários e relógio visíveis para a orientação do tempo.

Perigos na cozinha

Um ambiente perigoso da casa é a cozinha, por lidar com o fogão e guardar objetos cortantes. Portanto, as razões para a cozinha tornar um local de risco vão variar conforme a fase da doença. Mas as falhas de memória e alterações de comportamento podem ser um problema.

Numa fase inicial, algumas atividades podem ser mantidas, o que é desejável, mas podendo acarretar riscos, o que deve ser prevenido. A pessoa pode continuar cozinhando, mas é preciso que tenha sempre um cuidador junto na cozinha supervisionando como o paciente liga o gás, lida com os fósforos e acendedores, com as panelas no fogo, com as facas etc.

Atualmente já existem fogões com timer e bloqueios no bico do fogão. Os fósforos ou acendedores devem ser mantidos fora do alcance caso o paciente não cozinhe mais. Deve-se sempre tomar cuidados também com eletrodomésticos. A pessoa idosa e com demência pode apresentar dificuldade para lidar com aparelhos novos.

Com relação aos alimentos, por uma combinação da alteração da função executiva e memória e de alterações do comportamento, a pessoa com doença de Alzheimer pode comprar alimentos em quantidade muito superior ao que necessita, ou economizar alimentos, podendo resultar em um excesso de comida que pode estragar. Pode haver confusão para distinguir o alimento estragado, vencido, o qual pode ser ingerido e provocar intoxicação ou infecção intestinal. É recomendável que sempre um cuidador familiar esteja presente quando os alimentos forem adquiridos e consumidos. Fique atento às quantidades e procure escolher os alimentos com prazo de validade mais longo.

Banheiro: fonte de riscos

O banheiro é outra parte da casa com diferentes modalidades de riscos. É muito comum ocorrer quedas de pessoas idosas ao se deslocarem no banheiro ou durante o banho, ou ao sentar-se e levantar-se do vaso sanitário. Sugere-se que a iluminação do banheiro seja adequada, por causa de evidências de desequilíbrio e coloque barras perto dos vasos sanitários e no box. Retire a chave do trinco para que o paciente não tranque a porta pelo lado de dentro ou então tenha sempre à mão uma chave que permita sua abertura pelo lado de fora. Retire tapetes de tecido que podem escorregar. Guarde em lugar seguro produtos de higiene pessoal e medicamentos. Verifique se a água do chuveiro está numa temperatura adequada. A pessoa com doença de Alzheimer pode não saber mais como fazê-lo e não perceber que a água está muito fria ou muito quente. Outra precaução é tomar cuidados com aquecedores a gás.

Tais dicas para tornar a casa mais segura e o convívio mais agradável são importantes para todas as famílias que possuem um familiar com o diagnóstico de doença de Alzheimer e também outro tipo de demência.

É importante ressaltar que muitas vezes se prevalece o bom senso. Uma mudança radical nos ambientes e na sua forma de agir com o paciente pode ser desastrosa para alguém que está com dificuldades de memória e orientação no tempo e no espaço.

A implementação de todas as medidas dever ser pensada, planejada e comunicada também aos outros familiares que convivem com o paciente. Faça as mudanças conforme as necessidades forem surgindo. Converse sobre as mudanças, explique o que está ocorrendo e quais os riscos. Faça as mudanças sempre no sentido de simplificar e facilitar o convívio. Mantenha o ambiente em equilíbrio quanto aos estímulos e o mais saudável possível.

O que caracteriza um lar não é só o ambiente físico, mas especialmente suas preferências colocadas em cada espaço e de forma segura, na forma de objetos, design, decoração, relacionamentos estabelecidos, identidade e funcionalidade. São atributos físicos, sensoriais, cognitivos, afetivos, espirituais, climáticos e funcionais que nos circundam o dia a dia e do qual fazemos parte.




Elisandra Vilella G. Sé

Fonaoudióloga pela Faculdade Tereza D'Ávila de Lorena (FATEA/USC) (1995), Mestre em Gerontologia pela Faculdade de Educação da UNICAMP (2003); Doutorado em Linguística - Área de Neurolinguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP (2011); Especialista em Educação em Saúde para Preceptores do SUS pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês (2013); foi pesquisadora visitante na Associação Alzheiemr Portugal em Lisboa (2013); Coordenadora da ABRAZ - Associação Brasileira de Alzheimer - sub-regional Campinas e Jaguariúna.



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