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Procedimentos para superar as fases da síndrome de dependência química

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Danilo Baltieri

"Síndrome de dependência química: Como enfrentar a fase de desintoxicação e de manutenção? É possível passar por essas duas fases sem internar?"

Resposta: A Síndrome de Dependência de Substâncias Psicoativas (álcool, cocaína/crack, maconha, opióides, hipnóticos, estimulantes, nicotina, etc) é um problema bastante complexo e nenhuma fórmula única conseguirá abarcar todas as modalidades adequadas de tratamento para cada tipo de paciente dependente de determinada (s) substância (s). Na verdade, existem específicas estratégias terapêuticas para cada tipo de dependente químico, e o profissional especializado irá avaliar as mais indicadas para o seu paciente.

Realmente, os tratamentos disponíveis para pessoas portadoras de dependência química devem ser sempre baseados nas evidências científicas existentes, objetivando sempre o melhor resultado.

Entretanto, segundo o NIDA (National Institute on Drug Abuse) existem alguns princípios gerais no tratamento da dependência química que tomo a liberdade de citar neste texto:

a) Não existe um tratamento único que seja adequado para todos os pacientes;

b) O tratamento efetivo deve contemplar as várias necessidades do paciente e não apenas o uso das substâncias. Outros problemas médicos, sociais, familiares e jurídicos precisam ser abordados;

c) O planejamento terapêutico deve ser continuamente avaliado pela equipe médica, adequando-o corretamente às necessidades do paciente;

d) É importante que o paciente demonstre desejo em permanecer no tratamento;

e) Para muitos pacientes, os medicamentos são importantes ferramentas no tratamento inicial e na manutenção da abstinência;

f) Frequentemente, os pacientes com quadros de Dependência Química apresentam outros problemas de saúde física e mental, os quais precisam ser adequadamente diagnosticados e tratados;

g) A desintoxicação é apenas o primeiro passo no tratamento da dependência química. Após o tratamento cuidadoso dos sintomas físicos e psíquicos da Síndrome de Abstinência, o manejo terapêutico precisa continuar, objetivando a manutenção do comportamento de evitação do uso das drogas;

h) O tratamento não precisa ser voluntário para ser efetivo. Seguramente, quanto maior for a motivação do paciente para afastar-se das substâncias, maiores serão as chances de sucesso terapêutico. Entretanto, medidas compulsórias provenientes de vários sistemas (família, ambiente do trabalho, sistema judiciário) podem favorecer a percentagem de indivíduos que entram e se mantém no processo terapêutico;

i) O consumo de quaisquer substâncias psicoativas durante o tratamento deve ser adequadamente monitorizado pela equipe médica;

j) Os programas de tratamento devem incluir abordagem de várias possíveis complicações físicas decorrentes do consumo inadequado dessas substâncias;

k) A recuperação da dependência química pode ser um processo bastante longo e, muitas vezes, requer várias estratégias diferentes de tratamento.

Negação de dependência química é um dos maiores obstáculos ao tratamento

Nem todos os indivíduos que fazem uso inadequado de substâncias psicoativas reconhecem que têm um problema. A negação é uma dos maiores obstáculos iniciais ao tratamento. Logo, esse usuário deverá ser abordado pelo profissional especializado, o qual tentará mostrar as evidências do mau uso e das negativas consequências, motivando-o para uma tomada de decisão.

Durante a fase inicial do tratamento, geralmente, o paciente deverá modificar seu estilo de vida, evitar quaisquer situações ou pessoas que lhe favoreçam o consumo das substâncias, seguir adequadamente as orientações médicas. A abstinência completa é, em geral, o objetivo do tratamento.

Desintoxicação e manutenção da abstinência

À medida que a fase da desintoxicação passa, inicia-se a fase de manutenção da abstinência. Existem várias abordagens psicoterapêuticas e farmacológicas para auxiliar o paciente nesta etapa. Para algumas substâncias, como álcool, nicotina e opióides (heroína), a utilização de medicações é importante, sempre associadas às terapias psicossociais.

É bastante comum que o dependente, depois de um longo período de abstinência, onde ele modificou seu estilo de vida, evitou situações e pessoas que favoreciam o uso e seguiu as recomendações médicas, retorne ao uso das substâncias (recaída).

Recaída pode ser uma lição

A recaída deve servir para que o paciente diuturnamente perceba os fatores “gatilho” que o impulsionam para o consumo de drogas e aprenda com eles, de tal forma que esses episódios possam não mais acontecer. Recaída não é falha terapêutica; ao invés disso, faz parte do tratamento dessa grave doença médica, e sempre deve ser abordada adequadamente por profissionais especialistas.

Na verdade, muitos dependentes de substâncias são tratados em regime de ambulatório com sucesso.

Quando internar?

No entanto, a internação de alguns pacientes em clínicas especializadas pode ser necessária em várias situações, tais como:

a) Risco de suicídio ou homicídio;

b) Falha completa na manutenção de abstinência durante o tratamento ambulatorial;

c) Graves complicações aos diversos sistemas orgânicos (cardíaco, sistema nervoso central, etc.);

d) Síndromes de abstinência complicadas;

e) Estados psicóticos graves;

f) Falha completa de suporte social, com consequente exposição social;

g) “Overdoses” acidentais ou suicidas;

h) Pacientes que necessitam de um ambiente muito estruturado para modificar o estilo de vida.

Vya Estelar Responde

Vya Estelar quer colocar você, querido leitor, mais perto ainda de nós. Esse profissional irá responder dúvidas enviadas pelos internautas sobre um determinado tema. O psiquiatra Dr. Danilo Baltieri responderá questões ligadas à dependência química e vícios: drogas, álcool, cigarro e psicotrópicos. Os e-mails serão selecionados e editados de acordo com critério editorial do Vya Estelar, já que não será possível responder a todos. Seu nome e e-mail serão preservados.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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