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Reflita: em relação a quase tudo na vida podemos nos eximir de responsabilidade

Luiz Alberto Py 01/01/2016 PSICOLOGIA
Uma atitude ativa é fundamental, mesmo quando temos boas desculpas

por Luiz Alberto Py

Texto extraído de meu diário (2005)

De quarta para quinta-feira tive um sonho com papai. Na quinta-feira pela manhã eu iria – e fui – pegar um avião para comparecer ao enterro de uma amiga, em São Paulo. No sonho, meu pai – que já é falecido há muitos anos – trazia uma caixa de ferramentas e se queixava de que eu havia colocado dentro dela uma ferramenta quebrada. Na verdade, nem era uma ferramenta, era apenas um pedaço de ferro de uns 15 cm de comprimento, chato e irregular, com uns dois cm de largura, meio retorcido e um pouco enferrujado. Eu respondia que não havia colocado aquilo na caixa e pegava o ferro que meu pai me mostrava pensando: “Vou jogar este negócio fora para não haver possibilidade de alguém voltar a colocá-lo na caixa”. E dizia para meu pai que não se preocupasse que eu ia resolver o problema.

À tarde, estive com Silvia, uma amiga que também estava no funeral e que me convidou para almoçar em sua casa antes de minha volta para o Rio. Durante a refeição, ela me contou um pesadelo que a filha havia tido e então me lembrei do sonho já esquecido e contei-o a ela. Depois do almoço ela saiu para trabalhar e fiquei sozinho esperando seu marido que iria me dar uma carona até o aeroporto. Fiquei pensando no sonho e fui me dando conta de que nele havia uma mensagem para mim mesmo: “Não basta não ter feito, é preciso evitar que seja feito novamente”. Uma atitude ativa é fundamental, mesmo quando temos boas desculpas. É curioso que toda vez que sonho com meu pai encontro no sonho uma lição a ser compreendida. No sonho eu sentia que não era suficiente negar minha responsabilidade sobre colocar o ferro na caixa de ferramentas, mas que eu deveria tomar uma atitude para que o erro não se repetisse.

Relacionei o sonho com minha decisão de ir a São Paulo para o funeral. Poderia me dar uma desculpa e evitar a viagem, mas estar lá era importante para mim e eu não devia fugir da situação. Eu sabia que iria sofrer lá, principalmente durante o enterro. Sabia que iria encontrar o marido dela, meu grande amigo e que partilharia de sua tristeza. Mas me senti muito bem por ter ido. Quando abracei meu amigo, lhe disse que eu tinha ido para o enterro muito mais por mim do que pela mulher dele, que já não estava mais lá para me encontrar.

Fui pelo meu carinho por ela, mais ainda pela minha amizade com ele, mas acima de tudo para não me privar de viver aquele momento apesar da dor dele. Viver a dor na hora dela, sem fugir.

Aliás, quando recebi a notícia, por uma mensagem dele na caixa postal do meu celular, de que ela havia sido sedada, chorei muito. Entendi que era o fim de uma longa agonia, de um câncer que durante anos a consumiu. Fiquei surpreso ao perceber o quanto estava perturbado por uma morte já esperada. Foi tanto que só conseguir ligar de volta para meu amigo cerca de duas horas depois de receber a notícia, pois não conseguia controlar o choro. Quando liguei, a empregada deles me deu a noticia do falecimento e novamente não consegui conter o choro. Mas gostei, achei que foi bom e saudável o fato de estar com os sentimentos à flor da pele.

2010

Voltando à lição do sonho, penso que é importante esclarecer que minha atenção, ao relembrá-lo, ficou tomada pela ideia da importância de assumir responsabilidades e não buscar desculpas, nem esquivas. É claro que costumeiramente vemos pessoas que quando cobradas de alguma tarefa não executada se esforçam para explicar que não lhes cabe responsabilidade sobre a situação. E é comum que isto seja verdade, muitas vezes podemos ver algo errado acontecer e dizer para nós mesmos que aquilo não nos diz respeito. Aliás, em relação a quase tudo na vida podemos nos eximir de responsabilidade. Mas em meu sonho era claro que isto não satisfaz. É como se nos estivéssemos recusando a viver, a participar, a sofrer junto o que precisa ser sofrido. Nós não somos feitos de cristal e não precisamos ter medo de quebrar com facilidade.

Semana passada, fui e voltei no mesmo dia para São Paulo a fim de assistir ao casamento da filha de meus amigos. Também não precisava ter ido, podia inventar uma desculpa para mim mesmo, pensar que estava cansado demais depois de uma longa jornada de trabalho e me poupar do esforço de acordar cedo e fazer uma cansativa viagem. Mas, e a alegria da festa? A satisfação de ver uma vida evoluindo, uma família superando uma já antiga dor? Por que me privar de tudo isso?

Quanto mais amigos e pessoas queridas fizerem parte de nossa vida, mais momentos de dor sofreremos com eles. Porém é certo também que mais momentos de alegria teremos.

Se nos anestesiamos para não sofrer, a mesma anestesia nos impedirá o prazer. O muro que nos protege da dor é o mesmo que nos aprisiona e afasta o amor.




Luiz Alberto Py

É médico psiquiatra e psicanalista. Clinica no Rio de Janeiro e faz palestras por todo o Brasil. Publicou em 2002 o best-seller "Olhar acima do horizonte", em 2004: "A felicidade é aqui" e "Saber amar" todos pela editora Rocco. Mais informações: http://doutorpy.blogspot.com



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