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O óbito da boa escrita

Regina Wielenska 01/01/2016 PSICOLOGIA
Cliques de curtir substituem argumentos e a troca de ideias

por Regina Wielenska

Toda semana tenho que corrigir cerca de sete relatórios longos, entregues a mim por especializandos de um dos cursos no qual dou aula.

Fico impressionada com a quantidade de erros de Português. Sim, todo mundo tem o direito de errar na vida, mas que não seja toda semana e, muitas vezes, o mesmo erro. Mais e mas parecem a mesma coisa, bem como trás e traz. Pra que vírgulas, não é mesmo?

Concordância e colocação de pronome reflexivo parecem nunca terem sido ensinados na escola. Passaria muito tempo listando a imensidão de equívocos linguísticos dessa moçada.

Se meu assunto é a Ciência do Comportamento, a troco de que gasto um bom tempo também apreensiva com o uso inadequado de palavras e acentos? Ocorre que nosso ofício é de natureza verbal, a fala transforma pessoas. Precisamos documentar o efeito de nossas falas sobre os clientes, e um registro impreciso, redigido precariamente, informa pouco.

Uma das razões que suponho produzir esse desastre ao longo de poucas gerações, seria o fato de muitos jovens lerem pouco. Quando o fazem, são livros pouco refinados em termos de vocabulário e construções. Aprendemos por meio da exposição a bons exemplos. Aprendi a escrever razoavelmente por meio de Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Lygia Fagundes e outros do mesmo naipe. Todos foram excelentes professores. A eles se somaram textos de Filosofia, Sociologia e Psicologia, tudo no Ensino Médio. Estou falando de escola pública!

O segundo motivo pode ser o fato de que ensinar redação, a arte de produzir textos bem escritos, lógicos e criativos, com argumentação de qualidade, de preferência precisos e cativantes, é um trabalho desgraçado para professores de Português, requer muito tempo e algum estômago. Cada vez menos se gasta tempo induzindo os alunos a escreverem, para depois serem avaliados segundo critérios justos.

Por fim, tornou-se hábito produzir pela internet textos curtos, ricos em exclamações e pobres em conteúdo. Cliques de curtir substituem argumentos e a troca de ideias. Geralmente há muita imagem e texto reduzido, mais abreviações do que palavras em seu esplendor. E assim a língua escrita torna-se mais pobre.

O problema se amplia na hora de produzir textos científicos e lançamos mão de manuais de publicações e textos que nos ensinam a escrever segundo os cânones da ciência.

Tive acesso a blogs sensacionais, hoje cada um pode publicar seu livro digital, seja prosa ou poesia, com relativa facilidade. Cabe a nós garimpar os tesouros escritos e partilhar cada achado entre amigos e alunos.

Pais cansados pouco se dedicam a ler para os filhos pequenos. Mas é de valor inestimável para uma criança receber a atenção exclusiva de um adulto, que por meia hora se dispõe, com um livro no colo, histórias de fadas, animais ou aventuras.

Videogames e brinquedos são legais, mas livros também. Livrarias e bibliotecas podem virar lugares mágicos para uma criança, se os pais fizerem desse passeio sem pressa um tipo de degustação de luxo, de desfrute muito especial.

Como você foi educado? E suas crianças? Está na nossa mão reverter a morte da palavra bem escrita por um cidadão comum. Que viva o Português!




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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