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Em geral, depressão é determinada por uma combinação de fatores

Regina Wielenska 01/01/2016 PSICOLOGIA
Deprimidos tendem a se tornarem reclusos

por Regina Wielenska

Pesquisas mostram que a depressão em geral é determinada por uma combinação de fatores. E a Psicologia Comportamental oferece contribuições significativas ao propor um tipo de tratamento validado cientificamente, a ativação comportamental.

As palavras da ciência parecem complexas, mas o tratamento é até singelo na sua formulação.

Deprimidos tendem a se tornarem reclusos, inicialmente as coisas perdem a graça, não há mais sentido em sair com amigos, bater papo com eles, fazer esportes, ler etc.

Com o passar do tempo, há quem passe o dia em casa, talvez na cama, no escuro a maior parte do tempo, comendo em excesso ou abandonando refeições e perdendo peso. Talvez fiquem de pijama, andando pela casa, não se envolvendo com nada, quem sabe, sem tomar banho ou escovar o cabelo.
Cada pessoa atravessa a depressão de um modo

Cada indivíduo vai atravessar a depressão de um jeito, o ideal é buscar a associação entre fármaco e psicoterapia. A rede pública de saúde nem sempre oferece cuidados razoáveis, embora haja nos maiores centros urbanos maiores instituições, algumas formidáveis, geralmente universidades, ligadas a pesquisas e ensino.

O passo-a-passo para lidar com a depressão:

1º) O que uma pessoa deprimida pode fazer por conta própria (se tiver sorte, com a ajuda gentil de amigos e familiares) é tentar recordar de como ela agia e conduzia seus dias antes que a depressão se apropriasse da força do indivíduo para assumir o controle de tudo ou quase tudo. Ela abria a janela pra deixar o sol entrar? Escovava os dentes após cada refeição? Tomava banho todas as noites? Visitava amigos? Felicitava aniversariantes? Qualquer lembrança tem valor.

2º) O segundo passo consiste em escolher da lista um ou dois itens, os menos difíceis de cumprir. Nessa hora surge a armadilha destrutiva: "não vou fazer, eu não tenho a menor vontade!". De fato, a vontade fugiu. A pegadinha reside no fato de que somos qualificados para fazer coisas sem vontade, mas regidos pelo desejo de ficarmos livres da prisão depressiva. O mais bacana é a pessoa se surpreender que fez um movimento contrário à depressão e, depois de agir, nota que conseguiu entrar em contato, nem que seja um pouquinho só, com o bem-estar que sentia no passado ao ver o sol, ou tomar uma chuveirada e lavar o cabelo. Esse fragmento de prazer, resquício de outrora, de quando tinha saúde, ajuda o indivíduo a fazer novas tentativas. Tem aí início um processo que pode reverter a profunda fadiga, o desânimo, o pessimismo, as ruminações cheias de culpa etc.

3º) O importante é dar o passo certo. Ir aos poucos, ter perseverança, prestar atenção no progresso, não importando sua dimensão. Na medida em que um comportamento retomou sua força de antigamente, vale ampliar a lista e escolher mais um ou dois focos de investimento: ler manchetes no jornal, revistas ou internet, ligar pra um amigo íntimo, dar uma volta pequena nas redondezas, voltar a comer frutas, a escolha depende do estilo de vida de cada um. O objetivo é reconduzir a pessoa a produzir prazeres, sejam sensoriais ou mais ligados a realizações objetivas (cuidar da casa, interagir mais ativamente com as pessoas, voltar a trabalhar, ou outras opções.

4º) Um detalhe a se considerar: um dos fatores que contribuem para o surgimento da depressão é a impossibilidade ou incapacidade de manejar eventos estressores. Se a pessoa irá voltar pra um emprego que lhe traz profundos problemas e insatisfação, provavelmente acabará por sofrer recaída. Se o casamento é fonte de desprazer, ou as finanças estão caóticas, não há como mudar o quadro depressivo sem planejar intervenções focadas na resolução de problemas. Valores (em seu sentido mais existencial) precisarão ser reavaliados, a pessoa deprimida tentará encontrar congruência entre o que sente, pensa e faz, com ajuda do terapeuta e daqueles que lhe estimam.

A estrada pode ser tortuosa, mas estudos comprovaram sua eficácia. Aquisição de habilidades p\ra resolução de problemas, a aceitação do que não está em seu poder de mudar e a ativação gradual e persistente são recursos de grande valor e capazes de resgatar indivíduos para uma vida de qualidade.




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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