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Agora, amanhã, daqui a um ou dez anos

Regina Wielenska 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Vez ou outra avalie os resultados imediatos de suas ações

por Regina Wielenska

Neste texto, escolhi falar sobre o comportamento de escolher.

Calculem comigo: se eu tomasse um capuccino todos os dias, ao custo de R$3,00 cada, ao final de dez anos eu teria quase onze mil reais, isto sem considerar que o valor, se poupado, poderia ser acrescido de juros e correção. Com esse dinheiro poderíamos, a cada década, fazer uma ótima viagem, realizar o curso dos sonhos ou dar entrada num veículo, por exemplo.

Usualmente não percebemos que o valor de pequenas despesas diárias, acumulado por uma década, se mostraria razoavelmente expressivo. Para ser justa, preciso reconhecer que o desfrute do café diário pode se superar em muito o prazer de adquirir um bem mais caro dez anos, depois de uma pequena e regular privação cotidiana. A decisão de como aplicar nossos trocados é questão pessoal.

A situação complica quando falamos do uso de preservativos. Para evitar a gravidez e boa arte das doenças sexualmente transmissíveis, existe a possibilidade de recorrer a eles, distribuídos gratuitamente na rede pública de saúde. Os índices crescentes de mulheres infectadas, por exemplo, pelo vírus HPV (vírus do papiloma humano, precursor do câncer do colo de útero) nos sugere o número de relações sexuais não protegidas que ocorrem a cada dia. Crianças que nascem por “descuido” dos pais existem aos montes por aí, e parte delas sofre as consequências do despreparo emocional e financeiro da parentalidade acidental.

Açúcares, gorduras, álcool e sódio em excesso são vilões da saúde pública. Precisamos reduzir seu consumo, isto é consenso entre as autoridades médicas, e a gente costuma tomar providências efetivas (e olhe lá!) só depois que a saúde começa a mostrar os efeitos adversos dos abusos. Isso pode levar décadas, e em alguns casos pode ser tarde demais.

O tabaco e o crack são drogas que ilustram de modo mais claro o argumento subjacente às evidências apresentadas até aqui: tão logo um indivíduo faz uso de uma dessas substâncias, bastam poucos segundos para as moléculas ingeridas chegarem ao cérebro e estimularem nossa circuitaria do prazer. Aí mora o perigo: em indivíduos mais vulneráveis (biológica ou psiquicamente) o prazer imediato pode vencer os nefastos riscos de dependência química, morte, sequelas físicas, comportamento antissocial (no caso do crack), etc..

Consequências imediatas e as que se manifestam mais tarde

Em todos os exemplos há um mecanismo em comum: as prazerosas consequências imediatas tendem a vencer, com relativa facilidade, as consequências remotas, atrasadas. A coisa funciona assim: sinto-me bem logo após uma tragada. Para alguns fumantes, as consequências ruins podem nem mostrar sua cara. O prazer é imediato e certeiro. A conseqüência adversa é tardia e de ocorrência incerta. E no caso do tabaco e álcool há o incentivo da publicidade e a pressão social sobre os jovens, que geralmente não arriscam caminhar na contramão de seus pares etários.

As pessoas seriam mais moderadas nos desvarios da gula se um minuto após qualquer excesso aflorasse nas suas coxas uma bola de gordura, ou se ouvissem na hora soar o alarme de uma artéria em processo de obstrução. Usar camisinha (masculina ou feminina) exige um planejamento mínimo, que façamos manobras um pouco mais elaboradas para ajuste ao pênis ou à vagina, alguns não usuários até argumentam que não gostam do látex reduzir a sensibilidade. Que moça prefere exigir do parceiro que esse os proteja, ainda mais sabendo que um orgasmo se avizinha e nem sempre haverá outra oportunidade depois? E alguns rapazes ou moças consideram ofensa que lhes solicitem o uso do preservativo: você acha que eu não sei escolher meus parceiros ou pensa que sou promíscuo (a) e saio com qualquer um (a)?

Há quem tema prejudicar sua performance, achando que a camisinha atrapalharia a ereção ou algo similar. E, por fim, nem todo mundo que se relaciona sexualmente sem proteção acaba por engravidar ou contrair DSTs. O prazer imediato, com ou sem camisinha, é quase garantido, se comparado ao risco relativo, de natureza probabilística, dos eventos indesejados.

A pequena despesa cotidiana na cafeteria ou na loja de quinquilharias nos propicia um prazer regular, do qual nem sempre sabemos desfrutar. Mas é um prazer que se vive no presente imediato, e ele concorre com um objetivo maior a ser realizado muito tempo depois, às custas de um sofrimento relativo. Pra piorar, no início do então governo Collor, com o confisco do dinheiro das contas bancárias, poupadores disciplinados ficaram a ver navios, e receberam somente parte de seu dinheiro de volta, muito tempo depois, com índices questionáveis de reajuste monetário. Adiantou poupar?

Humanos vivem cotidianamente esses conflitos, gerados pelo fato dos prazeres imediatos, talvez diminutos, mas garantidos, se contraporem ao risco dos problemas futuros ou aos prazeres de maior monta (passíveis de obtenção ao preço de privações e do engajamento ativo em comportamentos com função de autocontrole), sendo ambos incertos na sua probabilidade de ocorrência.

Tem solução?

Nada é simples, e tampouco fácil, assim eu penso. Mas tudo tem jeito se usarmos algumas de nossas especiais faculdades: refletir sobre alternativas (contrastando os resultados advindos de diferentes dimensões temporais), planejar ações, assumindo uma postura ética e responsável. Com o apoio da emoção, podemos atuar na direção de valores que representem um jeito de viver que invista num bom futuro para aqueles que amamos, inclusive a nós mesmos.

Provavelmente, nosso treinamento pessoal e a educação das crianças deveriam propiciar condições para apreciarmos cada acerto, avaliarmos resultados de modo a corrigir equívocos e focarmos no presente, em ações coerentes com o pensar e o sentir.

O que isso significa para cada um é questão delicada, não pretendo ditar normas de conduta. Apenas sugiro que, vez ou outra, a gente se dedique a avaliar os resultados imediatos de nossas ações sempre em contraposição aos prováveis resultados de longo prazo. Afinal de contas, nosso cérebro é bacana demais para desperdiçamos a matéria-prima que nos foi dada... E a vida, este presente sem preço, merece um desfrute de real qualidade.




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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