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Da mamadeira às refeições à mesa: como ensinar as crianças a comer

Ceres Alves Araujo 01/01/2016 PSICOLOGIA
Fazer as refeições com os pais à mesa precisa ser considerado um privilégio

por Ceres Alves Araujo

Nas últimas décadas, muitas transformações ocorreram na sociedade, com repercursões importantes na vida familiar. A falta de tempo, o grande número de atribuições e compromissos das pessoas; a vida sempre agitada determinaram mudanças em muitos hábitos da família.

A forma de se educar filhos também sofreu profundas alterações, principalmente por serem as crianças dos tempos atuais, muito diferentes do passado recente.

Submetidas a estímulos diferentes, as crianças de hoje desenvolvem redes neuronais de complexidade diferente e, consequentemente, têm um funcionamento diverso de anos atrás. A maioria das práticas tradicionais para educar filhos, que foram válidas durante tanto tempo, não servem mais.

Restrinjo-me aqui a escrever sobre um dos vários hábitos que sofreram mudanças nesses tempos recentes. Trata-se do sentar-se à mesa para as refeições.

No passado, as refeições eram feitas normalmente com todos os membros da familia juntos à mesa. A boa educação exigia uma etiqueta: comer de boca fechada; não colocar os cotovelos sobre a mesa; o quardanapo de tecido é estendido sobre o colo das pessoas; antes de beber, deve-se limpar os lábios com o guardanapo para não se deixar marcas nos copos; ao acabar o refeição, os talheres devem ser colocados paralelos sobre os pratos etc. As crianças, assim que cresciam um pouco e podiam se sentar à mesa, aprendiam essas regras.
É necessário saber se comportar à mesa para ter o direito de fazer as refeições com os pais

Nos nossos dias, raramente pais e filhos fazem refeições juntos. Os horários são diferentes e o que se observa é que a chance da familia se reunir à hora do café da manhã, do almoço ou do jantar diminui progressivamente. Em um centro urbano grande, com a mobilidade tão dificultada, as crianças que têm pelo menos um dos pais à mesa na hora do almoço e os dois à hora do jantar podem ser tidas como privilegiadas. Muitos filhos apenas podem usufruir da companhia de seus pais à mesa nos fins de semana.

Mas, quanto à educação alimentar: o que comer e como comer, continua, como sempre, sendo uma obrigação dos pais. No que concerne ao comer, o que faz bem à saude, tem-se o acesso hoje a informações nutricionais de todos os tipos.

Como comer?

As dificuldades maiores surgem em relação ao como comer:

- onde?;

- de que forma?;

- com ou sem ajuda, até que idade?

O que é errado?

A criança não deve comer na frente da televisão, do computador, do tablet, do telefone em nenhuma idade. Muitas crianças que se recusam a comer ou que comem muito pouco na opinição de quem cuida dela, são distraídas frente aos aparelhos eletrônicos para que se alimentem. É um hábito ruim, pois ela come sem prestar atenção ao alimento, que deveria ser seu foco de atenção. Porém, se os pais têm o hábito de sentarem à mesa para a refeição com a televisão ligada ou falando ao telefone, com certeza ficará muito dificil ensinar aos filhos não fazer a mesma coisa.

As crianças devem ser estimuladas a comer sozinhas desde bem jovens. Bebês conseguem segurar a mamadeira, primeiro com ajuda e depois com autonomia. Assim que as crianças conseguem segurar com a mão objetos pequenos (entre 6 e 9 meses de idade), podem comer sozinhas pedacinhos de frutas, de legumes cozidos etc. Logo depois de um ano conseguem segurar uma colher e depois um garfo de pontas arredondadas. Levar o alimento à boca é mais complicado, mas a comida esparramada é uma possibilidade de brincar para a criança.

Primeiro no cadeirão e depois na cadeira, a criança senta-se à mesa. Fazer as refeições com os pais, à mesa, precisa ser considerado um privilégio. É necessário saber se comportar à mesa, para poder ter tal direito. Existem regras à mesa, ainda que não tenham a rigidez das de antigamente. À medida que a criança cresce, o aprendizado se torna mais complexo e ela irá adquirindo a etiqueta necessária ao ser civilizado.

É esperado que as regras não sejam sempre seguidas, pois o processo de aprendizado é passível de erros. Por exemplo, o filho pode não parar sentado, pode querer comer com as mãos, pode brigar com o irmão ao lado, pode se recusar a comer etc. Em situações desse tipo, ele está mostrando que não está se comportando da forma desejável e não pode estar à mesa. Irá comer na cozinha, por exemplo, pois perdeu o direito de se sentar à mesa, até a próxima refeição.

A criança não pode mandar no cardápio da casa. Se ela não quiser comer o que é apresentado à mesa, poderá ficar sem essa refeição, sem problema, e deverá esperar a próxima, sem ganhar biscoitos, doces ou alimentos desse tipo, no intervalo das refeições.

Convencionamos, há anos, como regra de subsistência dos seres humanos, três grandes refeições por dia. Embora a forma de cumprí-las venha se alterando com as mutações da organização social da família, o café da manhã, o almoço e o jantar obviamente continuam tendo que ser feitos. E, como todas as regras de socialização, as referentes à refeição também não são fáceis de serem internalizadas pelas crianças. Mas é imprecindível que sejam aceitas e compreendidas pelos filhos, desde o início da infância, pois elas existem para a saúde, a convivência e o bem-estar não só deles, mas de todos os membros da família.




Ceres Alves Araujo

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.



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