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Como alertar uma criança sobre perigos sem torná-la medrosa

Ceres Alves Araujo 01/01/2016 PSICOLOGIA
Ter medo é normal, mas é necessário adquirir estratégias para dominá-lo

por Ceres Araujo

Valentia,  no dicionário, é a qualidade do que ou de quem é valente; significa valor, bravura, coragem, ânimo, destemor, denodo, intrepidez, arrojo, ousadia. É também sinônimo de ação de valor, ação que revela grande coragem; proeza, façanha. Tem ainda, o significado de energia, força, vigor e resistência.

Para confrontar os tempos atuais, competitivos, muitas vezes agressivos e violentos, é preciso que a criança se desenvolva como um ser valente.

Os atributos relacionados à valentia são aqueles que desejamos a nossos filhos. Porém, a insegurança e o medo acompanham os pequeninos durante os precoces anos de suas vidas, característicos da sua fragilidade física e mental. Pais, geralmente,  lidam mal com os medos de seus filhos, principalmente se quando crianças, sofreram por terem muitos medos. 

Como pais, agimos muitas vezes de forma ambivalente sem perceber. Ensinamos aos nossos filhos a terem medos:  implicitamente, se formos pessoas mais medrosas, mais cautelosas e, explicitamente, quando falamos às crianças, para não se aproximarem de cachorros, tomar cuidado para atravessar a rua, não se aproximarem de janelas, não conversarem com estranhos. Também transmitimos medo quando explicamos que tomadas dão choque, cachorros atacam, gatos arranham, carros na rua matam, estranhos roubam e sequestram etc.. Depois, quando os filhos crescem, de repente queremos que eles sejam corajosos!

É evidente que precisamos ensinar a nossos filhos a tomar conta de si mesmos e a não se colocar em situações perigosas. Proteger os filhos é função inalienável dos pais. Crianças, já ao redor dos 4 anos, aprendem a lidar com complexas relações de causa-efeito e passam a ter a noção de risco e a sensação de medo.  Com a idade, controlando mais os impulsos, ganhando a possibilidade de pensar um pouquinho antes de agir, elas passam a ser mais cautelosas. Dessa forma, naturalmente o medo é aprendido, possuindo um aspecto muito positivo, que é o de ajudar a proteger a integridade da criança.

Sabe-se que, quanto mais inteligente é a criança, maior é sua capacidade de refletir, mais abrangentes são as relações de causalidade que ela estabelece entre o que ocorre ao seu redor e, como conseqüência possível, um medo maior. As situações novas, imprevisíveis podem causar mais ansiedade.

Porém, quando a criança cresce e tem pânico de cachorros e gatos ou gruda na mãe e no pai em ambientes sociais ou recusa-se a ir à casa dos colegas ou demonstra medo de andar de avião ou  medo de entrar em elevador ou não dorme sozinha ou tem horror de escuro ou tem medo constante que ladrões entrem na casa ou se sentem perseguidas por espíritos, etc ... os pais ficam constrangidos ou impacientes e depois preocupados com o desenvolvimento de seu filho. Perguntam-se: estarão criando uma criança muito assustadiça, covarde? Isso será já um Transtorno de Pânico?

O medo é característico da humanidade. A espécie homo-sapiens, que pensa e que pensa sobre o que pensa, tem medo. Com o crescimento, aprende-se a dominar o medo, a não deixar que o medo domine. Assim, ter medo é normal, mas é necessário adquirir estratégias para dominá-lo.

A criança é um ser curioso por natureza. Progressivamente, ela tende a testar as situações novas, controlando o medo e arriscando-se um pouco mais. Ela aventura-se e vencendo o medo inicial, ganha coragem e vai se sentindo mais segura, mais confiante nos seus próprios recursos e nas suas competências. Isso traz segurança e um enorme ganho à autoestima.

Os pais podem e devem incentivar seus filhos à aventura. Analisando juntos com eles, os fatores de risco e os fatores de proteção de cada evento, vale sempre a pena a aventura do novo.

Pais curiosos, interessados em aprender coisas novas, implicitamente estimulam seus filhos à aventura do conhecimento. Conhecer bem uma situação é dominá-la. Dominar uma situação, antes desconhecida e imprevisível, é o reforço para um passo adiante e, dessa maneira, a criança, calculando bem os riscos, mas entusiasmada pela nova aventura, vai se tornando valente.

Não queremos filhos valentões. O “João Valentão” é a pessoa que sentindo-se internamente frágil e impotente, compensa externamente, mostrando o oposto, mas que não resiste à menor pressão.

Queremos filhos valentes, que dominem o medo compreensível do novo e que, sentindo-se cada vez mais confiantes em suas próprias forças, procurem aventurar-se na vida.




Ceres Alves Araujo

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.



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