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Caminhos para se livrar da dependência química do álcool

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Tratamento para alcoolismo deve ser interdisciplinar

por Danilo Baltieri

"Meu namorado é alcoólatra. Namoro há cinco anos, no começo do meu relacionamento ele já bebia, mas não com tanta frequência como agora. Hoje em dia ele não consegue mais dormir sem beber, quando bebe se torna agressivo, fica alucinado. Sei que ele é alcoólatra, ele também admite que é, mas não quer parar. Tento aconselhá-lo, desculpá-lo. Houve até um período em que ele fazia uso de cocaína e álcool. De que maneira posso ajudá-lo? Quais as opções de tratamento e que tipo de abordagem deve ser feita?"

Resposta: O consumo inadequado de bebidas alcoólicas provoca várias complicações psiquiátricas e clínicas, que podem comprometer quaisquer papéis desempenhados pelo usuário, seja na família, no trabalho, no convívio com amigos, dentre outros.

Baseado no seu relato, o seu namorado apresenta alguns sintomas que reportam um possível quadro de Síndrome de Dependência de Álcool, como prejuízos familiares e sociais advindos do consumo, dificuldades para controlar o comportamento de consumir a substância, e persistência no consumo, apesar das consequências adversas.

O diagnóstico de Síndrome de Dependência deverá ser feito por médico psiquiatra especialista em Dependências Químicas. Ao ser verificado esse diagnóstico, existe um sério problema de saúde que deve ser rigorosamente tratado.

Existem vários outros quadros psiquiátricos provocados pelo consumo de bebidas alcoólicas, como: intoxicação, abuso de álcool, intoxicação patológica, quadros psicóticos induzidos, transtornos amnésicos que devem ser sempre adequadamente investigados por um médico.

O tratamento da Síndrome de Dependência de Álcool deverá ser interdisciplinar, envolvendo alguns profissionais médicos e não médicos no manejo do quadro.

Quanto ao tratamento da dependência de álcool, existem propostas de manejo consideradas eficazes na atualidade. A utilização de medicações específicas para controlar o desejo de beber, a participação em grupos de mútua-ajuda, o tratamento através de psicoterapias, o tratamento ambulatorial e, se necessário, a internação em hospitais ou clínicas especializadas são ferramentas úteis que podem ser recomendadas ao paciente, respeitando as suas devidas indicações.

Existem três tipos de medicações aprovadas para o tratamento dos quadros de dependência de álcool: o Naltrexone (Revia), o Acamprosato (Campral) e o Dissulfiram (AntiEtanol). Essas medicações apresentam indicações e contra-indicações específicas, que devem ser SEMPRE monitoradas por médicos especialistas.

Há outras medicações recentemente em avaliação para o tratamento desse grave problema de saúde pública, que, apesar de demonstrarem eficácia em vários estudos, ainda carecem de aprovação oficial para essa indicação. São elas: Topiramato (Topamax) e Ondansetrona (Zofran).

Atualmente, essas duas medicações têm sido intensivamente estudadas pelo nosso grupo de pesquisas do GREA.

Existem dados na literatura médica que demonstram que a associação de duas ou mais formas de tratamento colabora para o melhor prognóstico dos casos de dependência de álcool. Dessa forma, eu costumo propor ao paciente a associação do tratamento farmacológico com psicoterapias, além do incentivo à participação em grupos de mútua-ajuda, tipo Alcoólicos Anônimos (AA).

Não se deve esquecer que as medicações possuem indicações especiais e nem todos os pacientes com quadros de dependência ao álcool respondem terapeuticamente à mesma medicação.

Além disso, não recomendo a utilização apenas das medicações sem a adequada associação com outras modalidades de abordagem, como psicoterapias ou grupos de mútua-ajuda.

A terapia familiar deve SEMPRE ser incluída em qualquer modalidade do tratamento.

Internação

A internação em hospitais gerais ou psiquiátricos requer indicação específica também. Por exemplo, pacientes com graves sintomas de síndrome de abstinência ao álcool, com risco de suicídio, com falta completa de autocuidado, incapazes de se manter abstinentes durante o tratamento ambulatorial, com risco de hetero-agressão franca, com alta e deletéria exposição social são claros candidatos para internação.

Cada caso deve ser avaliado cuidadosamente, para que o diagnóstico seja o mais acurado possível, bem com a recomendação terapêutica.

Poucos são os órgãos do corpo humano cujo comprometimento pelo consumo crônico e intenso do álcool não esteja descrito na literatura médica. Seguramente, as consequências do uso do álcool dependem da dose consumida e do tempo de utilização.

Outros fatores como sexo do usuário, predisposição genética, estado nutricional, doenças prévias e uso concomitante de outras drogas também são importantes.

Muitos indivíduos dependentes de bebidas alcoólicas apresentam o chamado “estreitamento do repertório de atividades”, ou seja, um abandono progressivo de outros prazeres ou atividades alternativas em razão do consumo da substância.

Além disso, estudos têm demonstrado que cerca de 12% de todas as disfunções eréteis (casos de impotência sexual) são associadas ao consumo abusivo de bebidas alcoólicas.

Diminuição do desejo sexual, prejuízo da excitação e do orgasmo têm frequentemente sido associadas ao uso inadequado e crônico de álcool.

Você deve conversar com o seu namorado, expor as suas preocupações, impor limites e tentar convencê-lo a procurar ajuda especializada. Frequentemente, a participação ativa dos outros membros da família do dependente é essencial nesse processo.

Não se esqueça: os familiares do dependente também adoecem, tornando-se codependentes. Nesse sentido, você também deve procurar ajuda especializada.

Vya Estelar Responde

Vya Estelar quer colocar você, querido leitor, mais perto ainda de nós. Esse profissional irá responder dúvidas enviadas pelos internautas sobre um determinado tema. O psiquiatra Dr. Danilo Baltieri responderá questões ligadas à dependência química e vícios: drogas, álcool, cigarro e psicotrópicos. Os e-mails serão selecionados e editados de acordo com critério editorial do Vya Estelar, já que não será possível responder a todos. Seu nome e e-mail serão preservados.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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