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Prática de leitura mantém cérebro ativo ao longo da vida

Elisandra Vilella G. Sé 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Práticas de leitura ajudam a manter a funcionalidade intelectual

por Elisandra Vilella G. Sé

Imagina-se que as pessoas mais velhas passem mais tempo lendo do que as pessoas mais jovens, pelo fato da leitura ser uma atividade que não exige tanto esforço físico e a maior parte das pessoas mais velhas ser aposentada e com tempo mais livre para sua prática. Mas não é bem assim. Geralmente as pessoas mais velhas depois de se aposentarem não leem mais.

Os adultos mais velhos que leem muito são os que geralmente foram quase leitores vorazes quando jovens. Se considerarmos apenas os adultos mais velhos, que são leitores ativos, então existem certas diferenças intrigantes entre eles e seus pares mais jovens.

Os leitores mais velhos ativos passam mais tempo lendo, mas significativamente a maior parte do tempo é reservada à leitura de jornais e revistas. Isso significa que a prática de leitura dos mais velhos não é tão intensa a ponto de desenvolver e manter a habilidade da leitura, porque o conteúdo dos jornais pode ser fácil comparado às exigências de um romance de peso, por exemplo. Da mesma maneira que a falta de treino intenso reduz o desempenho de um atleta, a falta de leitura de textos, livros de ficção, romance, biografias, documentários, pode provocar um declínio nas habilidades de leitura. Não se sabe por que ocorre essa mudança nos hábitos de leitura ao longo da vida.

Muitas pessoas quando chegam à velhice sentem que já leram quase toda ficção que gostariam de ler e não querem reler obras das quais já conhecem os enredos. Os adultos jovens talvez leiam obras mais “pesadas” para aperfeiçoar-se. Os mais velhos já não têm esse impulso competitivo. Seja qual for a razão, eles escolhem leituras fáceis, tipo periódicos, jornais ou ficção leve na maior parte do tempo. Além disso, eles parecem se divertir tanto com suas leituras quanto os adultos mais jovens.

A leitura é uma “atividade interativa complexa de produção de sentidos”, ou seja, quando lemos um texto estamos captando ideias do autor, interagindo com ele, mobilizando saberes. A capacidade do uso da linguagem, que diferencia o homem de outros animais, é uma admirável capacidade de formar ideias no cérebro dos demais. Portanto, a leitura é uma atividade na qual se levam em conta as experiências e os conhecimentos do leitor, exigindo dele um conhecimento dos sistemas da linguagem (conhecimento gramatical), o conhecimento de mundo ou enciclopédico (vocabulário, conceitos, representações) e o conhecimento sociointeracional (conhecimento sobre as ações verbais, formas de inter-ação através da linguagem). Tais conhecimentos envolve, também, o saber sobre as práticas peculiares ao meio social e histórico em que vivem os leitores para que possa existir o devido reconhecimento do que está sendo lido.

Quando lemos um texto não somos simplesmente um decodificador de textos, um receptor passivo, e sim sujeitos com conhecimentos em processo de interação com o conteúdo que gostamos ou que nos interessamos em ler. Dessa forma a leitura é o processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de compreensão e interpretação do texto, a partir de seus objetivos, de seu conhecimento pelo assunto, sobre o autor e de tudo que sabe sobre a linguagem. É uma atividade que implica estratégias de seleção, antecipação, inferência e verificação, para haver a devida compreensão. As práticas de leitura ajudam a manter a funcionalidade intelectual ao longo da vida, mantendo a mente ativa e prevenindo de déficits de memória e declínios das funções cognitivas.

Estilo de vida e letramento

As práticas de leitura estão relacionadas ao estilo de vida das pessoas e ao seu grau de letramento.

Letramento se define por um “conjunto de práticas de comunicação social” relacionadas com o uso de materiais escritos, que envolvem ações de natureza não só física, mental e linguístico/discursiva como também social e político/ideológica. Letramento não é o mesmo que alfabetização ou nível educacional, ou seja, não corresponde ao aprendizado do código escrito. O letramento se refere ao contexto e práticas sócioculturais determinadas. Tem a ver mais com o conhecimento e os usos que o sujeito tem da língua e realiza com ela, do que com a formalização do aprendizado do código escrito que a pessoa apresenta. O letramento é a habilidade de se colocar em prática todos os comportamentos necessários para desempenhar adequadamente todas as demandas de leitura.

A deficiência visual também é um fator que prejudica a manutenção dos hábitos de leitura na velhice. A visão da maioria das pessoas mais velhas piora e a acuidade visual diminui. Estudos estimam que 23% das pessoas mais velhas são incapazes de ler textos em impressão normal. Uma solução para isso é imprimir livros com caracteres maiores. A impressão maior facilita a leitura para as pessoas com dificuldade visual.

O importante é que se mantenham as habilidades de leitura ao longo da vida, a prática da leitura aumenta a *densidade sináptica no cérebro, aumentando o número de conexões neuronais. E a ação reflexiva dos indivíduos sobre a língua, além de possibilitar o bom funcionamento intelectual, auxilia na manutenção das competências na velhice devido ao enriquecimento de estratégias sóciocognitivas acumuladas ao longo do curso de vida, na qual se inclui a leitura e a escrita.

*Densidade sináptica: refere-se ao número de neurônios e consequentemente maior comunicação entre as células nervosas.




Elisandra Vilella G. Sé

Fonaoudióloga pela Faculdade Tereza D'Ávila de Lorena (FATEA/USC) (1995), Mestre em Gerontologia pela Faculdade de Educação da UNICAMP (2003); Doutorado em Linguística - Área de Neurolinguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP (2011); Especialista em Educação em Saúde para Preceptores do SUS pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês (2013); foi pesquisadora visitante na Associação Alzheiemr Portugal em Lisboa (2013); Coordenadora da ABRAZ - Associação Brasileira de Alzheimer - sub-regional Campinas e Jaguariúna.



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