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Algumas pessoas blefam até para elas mesmas

Redação Vya Estelar 01/01/2016 PSICOLOGIA

por Luís César Ebraico

Evidente que é de extrema vantagem para um jogador de pôquer ser um bom psicólogo, o que lhe dá melhor possibilidade de perceber quando outro está blefando. Acontece que as pessoas não blefam apenas no pôquer. Blefam também na vida. E com uma assustadora frequência, que só os bons psicólogos são capazes de avaliar, sendo capazes de, quando desconfiam do blefe, pagar para ver. Mais: algumas pessoas blefam até para elas mesmas, só descobrindo que blefavam quando se lhes pede que mostrem seu jogo. Ana Maria, a quem namorei, era assim. Blefava até para ela mesma. É a protagonista do episódio que passo a relatar.

Antes de fazê-lo, quero fazer algumas considerações sobre valores. Em minha opinião, todos têm o direito de ter os seus valores, sejam quais for. Um tribunal pode e deve condenar e aplicar todas as sanções cabíveis a quem infringe as leis por esse tribunal representadas, mas não tem direito, em adição a fazê-lo, de enxovalhar e denegrir a pessoa do infrator.

Há uma variação infinita de visões axiológicas relativamente às relações amoroso-sexuais: indo da obrigação islâmica de segregação da mulher até do simples olhar de outros homens à oferta feita por um esquimó - não sei se usam isso ainda - de que o forasteiro que o visita sirva-se sexualmente de sua mulher, indo da castidade à promiscuidade, indo da monogamia à poligamia, da homossexualidade à heterossexualidade ou bissexualidade etc., etc.

Eu, particularmente, defendo que, pelo menos a partir do momento que uma sociedade considera um sujeito apto a cumprir deveres como, por exemplo, votar e a ter direitos como, por exemplo, dirigir automóveis, ninguém mais deveria se intrometer na forma e direção que ele dá a sua vida amorosa e sexual, entendido que ele o faça, não por forçar ou ser forçado, mas montado sobre seu arbítrio e respeitando o arbítrio dos demais.

A mim, por exemplo, não interessam "fidelidades fiscalizadas". Soa-me insólito ouvir um homem dizendo: "Minha mulher, me trair? É ruim! Eu tô ali, em cima! Ela ta controladinha! Não dou mole, não!" Para mim, ele está passando a mensagem de que se sente um cornudo potencial, que só não tem tal potencialidade concretizada mediante muito esforço. À parte isso, acho impossível manter uma relação satisfatória e profunda com alguém, se mentimos para essa pessoa. Se a mulher que está comigo precisar saber alguma coisa sobre mim, o mais simples é que pergunte a mim mesmo. Ou vou dizer-lhe a verdade ou, se estiver num momento de estranhamento com ela, falar algo como: "Lamento, mas não me estou sentindo suficientemente bem com você para lhe responder a essa pergunta". Aí, sim, cabe, se ela quiser, ir procurar informações alhures.

Os valores de Ana Maria sobre amor e sexo não eram exatamente esses e, além de ser uma blefadora contumaz, parece que tinha menos disposição do que eu para agir de acordo com os valores que dizia esposar. O diálogo a seguir, ocorrido quando voltei de um almoço com minha anterior companheira (sobre o que, evidentemente, não menti) mostra bem isso:

ANA MARIA (a quem, aliás, na época, eu muito amava): - Eu não sou mulher de ficar namorando homem que fica indo se encontrar para almoçar com ex-mulher!

EU: - Ah, sim? E você já decidiu quem você vai namorar agora?

Calou-se, saiu da sala e voltou, algum pouco tempo depois, perguntando se eu queria tomar um cafezinho.

Antes de blefar, é interessante saber com quem. Mas, como?, se, às vezes, nem o blefador sabe que está blefando?




Redação Vya Estelar



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