DESTAQUES

A amorosidade que nos cura as feridas

Fátima Fontes 15/05/2019 PSICOLOGIA
A amorosidade que nos cura as feridas
Fonte: imagem Pixabay
E que o amor nos cure de “nós mesmos”

Por Fátima Fontes 

Introdução

“A relação amor/racionalidade deve ser em yin yang, um sempre ligado ao outro e sempre contendo em si o outro, no seu estado original. Esse amor nos ensina a resistir à crueldade do mundo, a aceitar/recusar esse mundo. Amor também é coragem. Ele nos permite viver na incerteza e na inquietude. É remédio para a angústia, resposta para a morte e consolo”.
(Edgar Morin, no livro O Método 6 – Ética. Porto Alegre: Sulina, 2005, p. 202).

Vivi nesses primeiros meses desse ano algumas experiências que me direcionaram para uma reflexão contínua sobre dores e superações relacionais.

E, como sempre me ocorre, a partir da minha” sede de observar e contemplar para viver”, pude estar “no lugar certo, com as pessoas certas, na hora certa” e assim presenciei uma cena de duas crianças que se feriram “sem querer”, durante um jogo e que com a doçura e sabedoria, que também pertence às crianças, se ajudaram mutuamente.

O ingrediente “mágico/curador” foi o amor que tiveram, a vontade de ajudar um ao outro, um verdadeiro “espetáculo” de humanidade, ainda bem que pude estar junto e assim registrar aquele precioso instante na vida de todos os participantes da cena.

E é contagiada por esse especial momento que baseio essa reflexão, desejosa, como sempre, que ela contribua para nos esperançar e iluminar a caminhada de nossa jornada inter-relacional.

Voltando ao simples: caminho do encontro

Agora vou narrar o momento inspirador que vivi. Quatro crianças do prédio em que vivo, estavam na quadra poliesportiva do prédio querendo iniciar um joguinho de futebol, mas uma delas a mais nova, que só tinha seis anos, estava se sentindo muito inferior à qualidade dos outros jogadores.

Foi quando o mais velho de todos, do alto de seus quase dez anos, teve uma ideia e indagou ao amigo “encolhido que se recusava a participar”: amigo, qual seu jogo preferido? E o amigo menor, respondeu: queimada, então, retrucou ele: se imagine jogando queimada, só que com os pés.

O olhar da criança menor se iluminou, e sem resistência alguma ele disse: ah! Assim eu consigo jogar, e começou a participar do jogo.

Tudo ia bem, até o momento em que justo os dois jogadores acima, numa disputada de bola, se esbarram e se machucam: o mais velho quebrou seu aparelho ortodôntico e o mais novo feriu o couro cabeludo.

O mais velho caiu ao chão com o impacto, e o mais novo, aturdido com a pancada, chegou perto do amigo e com uma simplicidade, dos sábios, apesar de só ter seis aninhos disse: amigo, não fique triste, você me ajudou a jogar, se você não tivesse me ajudado, eu não conseguiria. Então agora vou te ajudar: meu avô me ensinou um dia que, nos momentos em que eu ficar triste, eu posso me lembrar de uma coisa muito boa que eu vivi. E eu quero te ajudar a lembrar da ajuda que você me deu, acho que sua dor vai diminuir.”

Fiquei banhada com a humanidade desse momento, e parabenizei a ambos, por estarem se ajudando. Estava muito emocionada e reflexiva, afinal estava ao lado de duas crianças, que ainda tinham o “mapa do encontro” humano. Assim, podiam segui-lo para lidar com seus mal-estares.

E essa constatação me contagiou, e gerou muitas inquietações: por que nós nos perdemos desse “mapa simples e original”? Onde nos tornamos pessoas fechadas em nossa própria dor, e perdemos assim a generosa capacidade de nos sensibilizarmos com a dor do outro?

E o que me veio, de pronto à mente, foi a forma “complicada” com que lidamos com nosso cotidiano, parece que ela nos afastou do “simples” que resolve tudo e que pode diminuir as nossas dores relacionais.

Faz-se urgente voltarmos a olhar para o simples, para a alegria e ações de crianças que possuem o “mapa da simplicidade”, e procurar “reaprender” a viver com elas.

Desafios do caminho: vencer a desesperança cotidiana

Já nos dizia e cantava o poeta Chico Buarque: “todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã, me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de paixão...”, como seria maravilhoso poder “acordar” assim, repetindo nosso “melhor” em nossas relações, mas a verdade é bem outra.

Parece que levantamos tensos, preocupados, precisando “correr” em busca de algo: nossa performance pessoal, o mais das vezes idealizada; nossas frustrações e expectativas com o “outro”  com quem vivemos e nos relacionamos; aflitos por dinheiro para isso, para aquilo, para aquilo outro e o mais das vezes angustiados com nossas pendências, compromissos etc parece que nos falta o ar.

Sem “respirar”, o “sorriso pontual e o beijo de paixão”, não é dado. E ao invés de celebrarmos o “fôlego da vida”, que sobre nós foi soprado, já levantamos “bufando e queixosos”. A reclamação de tudo e por tudo, faz desaparecer o “mapa do encontro...”.

Que triste cenário. Mas como tudo nessa vida, ainda há outras possibilidades à nossa espera, cotidianamente.

A primeira possibilidade à nossa espreita é a “boa respiração”, precisamos inspirar e expirar profundamente, até o “umbigo”, como nos ensina os exercícios do Tai Chi Pai Lin, da Yoga etc.

Na sequência, é tempo de “agradecer” por tudo: pela vida, pelo corpo que temos, por todas as coisas que poderemos realizar com ele, mesmo que possua suas limitações; pelo teto e “cama” onde dormimos; e se tivermos conosco pessoas: bendiga cada uma delas, faça uma prece por cada uma e por você.

Celebre as oportunidades: comer, trabalhar, estudar, cuidar... Não banalize cada uma delas, afinal, elas não são as mesmas para todos, infelizmente.

Exulte pelos desafios, sem eles, a vida se esvazia de “para quês”.

Precisaremos “mudar a nossa lente” perceptual matinal, afinal, o começo do dia será a grande oportunidade de seguirmos ou não o “mapa do encontro”.

 E para terminar...

 Com o “mapa do encontro” na mão, que nossos “despertares”, nos habilitem a promover “cura para nossos males” cotidianos, além de assim, podermos nos apresentar mais solidários e envolvidos com os “que sofrem e choram”.

E que o amor nos cure de “nós mesmos”.

E já que a inspiração desse texto foram as crianças, terminaremos com uma canção/convite, muito simples e até hoje ainda cantada em algumas escolas.

Bom Dia

Bom dia amiguinho,
Como vai?
A sua “simpatia” nos atrai,
Faremos o possível
Para sermos bons amigos.
Bom dia Amiguinho...




TAGS :

    amor

Fátima Fontes

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008



ENQUETE

Suas relações amorosas duram?





VOTAR!
Vya Estelar - Qualidade de vida na web - Todos os direitos reservados ®1999 - 2019
O portal Vya Estelar não se responsabiliza pelas informações e opinião de seus colunistas emitidas em artigos assinados.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação.