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Meu marido é alcoólatra, dorme pelas ruas e tenho duas filhas pequenas. O que faço?

Danilo Baltieri 18/06/2018 SAÚDE E BEM-ESTAR
Meu marido é alcoólatra, dorme pelas ruas e tenho duas filhas pequenas. O que faço?
Fonte: imagem Pixabay
A exposição social a que seu esposo parece estar sujeito é uma indicação de internação

Por Danilo Baltieri

Depoimento de uma leitora:   

“O que faço meu esposo é alcoólatra, ele fez tratamento no CAPS, passou quase quatro anos sem beber e agora teve uma recaída. Já vai fazer um mês que ele se encontra pelos bares, dormindo pelas ruas... Já fui buscá-lo, mas ele não quer voltar pra casa. O que devo fazer, pois tenho duas filhas pequenas e elas estão sentindo muito a falta dele?”

Resposta: Cerca de 90% dos portadores de problemas com o uso de bebidas alcoólicas apresenta recaídas em um período de 4 anos após o início do processo terapêutico. Isso significa que, infelizmente, as recaídas são eventos comuns e que devem ser diuturnamente dribladas pelos doentes e seus familiares.

Entre aqueles que obtiveram um tempo razoável de sucesso em termos de abstinência completa, as recaídas são comumente caracterizadas por dois notáveis aspectos:

a) A imprevisibilidade do portador diante da bebida

Ou seja, o portador acredita que, após algum tempo de abstinência, já tem condições mentais e comportamentais para beber controladamente;

b) O fracasso em interromper o ciclo de consumo de bebidas uma vez iniciado
 
Seguramente, o desenvolvimento do alcoolismo tem raízes psicossociais, genéticas, biológicas, neurais. Assim, entre aqueles com problemas com o consumo de álcool, a perda do controle diante da bebida não é apenas situacional, mas permanece durante longo tempo (às vezes, para a vida toda).

A fissura ou “craving” pelas bebidas alcoólicas é um denominador comum entre alcoolistas, com gravidades variáveis para cada portador do problema. Fatores intrínsecos ao sujeito, como estados de ânimo e estresse, bem como fatores extrínsecos, como a exposição frequente às bebidas, devem ser sempre monitorados tanto pelo bebedor quanto pelos seus familiares e amigos conhecedores do problema.

Também infelizmente, quadros como o reportado por você não são incomuns na prática clínica especializada. Quanto maior a gravidade da doença alcoolismo, maiores as chances de recaídas. E, consequentemente, quanto mais frequentes e graves são as recaídas, menores são as chances dos portadores e dos seus familiares acreditarem em algum sucesso terapêutico.

Nos procedimentos terapêuticos geralmente aplicados para portadores de problemas com o uso de bebidas alcoólicas, três são os denominadores comuns:

a) modificação do estilo de vida, objetivando a aquisição de habilidades cognitivas, afetivas e motoras para evitar situações de risco;

b) identificação dos propulsores internos e externos do uso;

c) desenvolver progressivamente estratégias de controle.

É verdade que estes três pontos acima são bem conhecidos entre os portadores de alcoolismo que fazem tratamento. E, apesar disso, é um fato infeliz que uma parte significativa deles não obtenha o sucesso almejado em um prazo curto ou mesmo médio, apresentando recaídas frequentes. O tratamento dessa doença é um processo de mão dupla, ou seja, os profissionais de saúde devem envidar enormes esforços para aperfeiçoar as estratégias terapêuticas e, de outro lado, os portadores e familiares devem seguir à risca as orientações dos profissionais.

Também é sempre importante enfatizar que existem diferentes fórmulas terapêuticas para o alcoolismo, incluindo abordagens farmacológicas, psicoterapêuticas e grupos de mútua ajuda, os quais devem, sempre na medida do possível e seguindo recomendações precisas, ser associados. Outrossim, abordagens ambulatoriais e em regime de internação (de curto, médio ou longo prazo) também devem ser sobrepesadas para cada caso e situação.

Quando um caso é refratário aos tratamentos convencionais, é recomendável:

a) integrar outros membros familiares que já conhecem o problema;

b) modificar a fórmula terapêutica, incluindo medicações por exemplo;

c) propor internação em clínica especializada, com o fim de interromper o padrão compulsivo do uso.

Você parece estar sozinha nessa história e isso poderá ser extremamente prejudicial para a sua saúde mental e física. Dessa forma, sugiro que outros controladores externos possam ser incluídos no processo do tratamento.
A exposição social a que seu esposo parece estar sujeito é uma indicação de internação. Assim, recomendo também que os profissionais médicos do CAPS onde ele faz o acompanhamento possam ser avisados. A intoxicação alcoólica é uma emergência médica; logo, de qualquer forma, combinando a exposição social com a intoxicação continuada, seu esposo deverá categoricamente ser conduzido até um setor médico de emergências clínicas o quanto antes.

Não perca tempo!

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracteriza como sendo um atendimento.




TAGS :

    marido, alcoólatra, recaída, filhos, pequenos, psiquiatria

Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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