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Vida afetiva surgida na Internet exige sérios cuidados

Roberto Goldkorn 01/01/2016 COMPORTAMENTO

por Roberto Goldkorn

Tempos atrás a mídia noticiou o suicídio da técnica judiciária Maria Aparecida que, num pacto de morte com o "namorado", somente ela ingeriu veneno de rato. Em seguida foi preso seu "namorado" Cléber Ferreira Gusmão Ferraz, 37, por suspeitas de participação na tragédia. A policia logo desvendou a trama tão pérfida quanto banal e anunciada. A moça iniciara um romance pela internet com esse sujeito que se fazia passar por um agente do serviço secreto israelense. Aos poucos ele foi conquistando-lhe o coração solitário e preparando-a para o golpe. Dinheiro. Conseguiu obter dela financiamentos de carros de luxo, e muitas outras mordomias. A polícia descobriu que eles haviam feito um pacto de morrerem juntos, mas nesse pacto, na verdade, só ela entraria. Depois descobriu que antes dela, houve outra também derrotada por um câncer fulminante (provavelmente ao saber da verdade).

O mais cruel dessa história é que um caso semelhante a esse já havia sido contado por mim num dos meus *livros. Obviamente ela não leu o livro, pois não se achou incluída nessa mórbida categoria de mulheres que dormem com seus algozes. Não, ela dormia com o homem da sua vida, meio problemático, mas "quem não é?" Afinal, ele a amava e ela também tinha os seus defeitos. Nem mesmo a contabilidade da extorsão, o tamanho do rombo (segundo o irmão da vitima uma brava integrante da classe média com bastante crédito na praça) a fez pensar, não caiu a ficha. Ah o amor é mesmo lindo!

Essa doença grave, de cura complicada que é o "buraco negro amoroso", está se alastrando e com ela as doenças oportunistas, os "sedutores profissionais psicopatas" disfarçados de doutores-cura-tudo". Até há pouco tempo não havia notícias de vitimas fatais mas a coisa está mudando, como aliás tudo no nosso planeta. Esse meu tom meio de deboche na verdade é uma máscara que tenta esconder a minha ira, minha profunda revolta contra esses criminosos e pela sociedade que cria tão bem as suas vítimas e lhes entrega de bandeja. Meu maior temor é que um exército de homens dispostos a se passar por agentes secretos de si mesmos, descubra o imenso filão que está a sua disposição - essa reserva de mercado como diriam os mais debochados que eu. Pessoas que vão descobrir essa legião de solitárias e ingênuas, com boas contas bancárias ociosas, e teclando ávidas na Net em busca de um amor virtual que depois se materialize como num conto de fadas. Mulheres aparentemente calmas, umas mais introvertidas, outras que sempre se acharam o patinho feio que nunca virou cisne, seu nome é legião. O acesso a essa mulheres antes se dava quase que aleatoriamente, e isso as protegia dos predadores mais tenazes. Agora temos a Internet que entrega por ordem alfabética na telinha dos "agentes secretos" categorizadas por idade, local de moradia e em breve para facilitar com seu extrato bancário e histórico sentimental.

A polícia prendeu o "agente", mas suspeito que como um bom agente secreto logo estará nas ruas munido do seu inseparável laptop. Caçando novamente. Mas a polícia está de mãos atadas para prender os mandantes do crime: nós todos. A sociedade e sua cultura dos contos de fadas, com a sua displicência quanto a educação sentimental como se aprender a teoria dos conjuntos fosse mais importante que aprender a se defender de um sedutor profissional. Vocês podem achar que estou exagerando, que essas moças inocentes são apenas uma minoria em extinção, que as jovens de hoje são mais descoladas e instruídas na malandragem afetiva. Vocês podem dizer que eu deveria me preocupar mais com as balas perdidas, ou com a fome no Nordeste, ou com o aquecimento global. Mas tudo isso não passa de areia nos olhos para que não olhemos para dentro de nossas casas, de nossos corações, e vermos como estamos adubando uma sociedade de lobos de um lado e cordeirinhos de outro.

Esse caso que pouco chamou atenção, que não gerou passeatas, nem protestos mais veementes vai se multiplicar. Essas ocorrências irão se tornar mais freqüentes, é claro nem sempre com esse desfecho fatal, mas certamente vai piorar. Da mesma forma que os assaltos a banco estão aumentando pelo cerco ao trafico, o assédio sentimental pode vir a se tornar um grande negócio para os criminosos que não querem sujar as mãos, ou trocar tiros com a polícia.

*Dormindo com o Inimigo e repetido no que vai sair ano que vem Assédio por Sedução.




Roberto Goldkorn

É escritor e autor dos seguintes livros: "Feng Shui para Brasileiros - A Medicina da Habitação", "Feng Shui - Energia e Prosperidade no Trabalho", "Feng Shui Para Brasileiros - A Cozinha" - todos pela Editora Campus. "Não Te Devo Nada" e "Solidão Nunca Mais" ambos pela Bertrand Brasil.



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