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Quem fez uso de cocaína, maconha, balas, e não usa mais, continua com psicoses por quanto tempo?

Danilo Baltieri 18/01/2018 SAÚDE E BEM-ESTAR
Quem fez uso de cocaína, maconha, balas, e não usa mais, continua com psicoses por quanto tempo?
Fonte: imagem Pixabay
O quadro de psicoses acaba ou fica para o resto da vida?

Por Danilo Baltieri

Resposta: O termo “psicose” refere-se a um conjunto de sintomas, como alucinações e delírios, os quais afetam significativamente o bem-estar do indivíduo que porta o problema.

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Comumente, o portador desses sintomas demonstra dificuldades em diferenciar o que é real do que é imaginário ou irreal, o que compromete seus sentimentos, comportamentos, atitudes e formas de interação social, gerando sofrimento significativo e prejuízos pessoais, sociais e familiares. Tais sintomas não são incomuns e a chance do seu surgimento aumenta entre aqueles que fazem uso de substâncias psicoativas, como o álcool, maconha e/ou cocaína.

Sintomas psicóticos

Algumas características dos sintomas psicóticos induzidos pelo consumo de substâncias psicoativas podem ser assim brevemente descritas:

a) Esses sintomas costumam aparecer na vigência do consumo das substâncias psicoativas ou mesmo durante os períodos iniciais da retirada dessas substâncias entre usuários regulares;

b) Frequentemente, esses sintomas são de curta duração (dias a semanas). No entanto, no caso, por exemplo, de algumas substâncias como a meta-anfetamina, os sintomas psicóticos induzidos podem durar bastante tempo, variando de semanas a meses;

c) Quando tais sintomas duram mais tempo, eles tendem a ocorrer entre indivíduos com alguma predisposição familiar para o desenvolvimento de quadros psicóticos ou mesmo entre indivíduos que não cessam o uso das substâncias;

d) Outrossim, é possível que as substâncias psicoativas provoquem o início de algum outro quadro psicótico preexistente, porém não ainda manifestado no usuário.

Os transtornos psicóticos induzidos pelo uso de substâncias psicoativas não são o mesmo do que os transtornos psicóticos não resultantes da ação direta das ditas substâncias sobre o cérebro (aqui chamados de transtornos psicóticos primários). Isso, porém, também não significa que o consumo de álcool e outras drogas por si exclua o diagnóstico de um transtorno psicótico dito primário, como é o caso dos transtornos esquizofrênicos.

De fato, existem diferentes tipos de transtornos psicóticos e um desses tipos é aquele induzido pelo consumo de diferentes tipos de substâncias psicoativas. E, dentre aqueles que portam um transtorno psicótico dito primário (não resultante diretamente da ação das substâncias psicoativas sobre o cérebro), o consumo de substâncias psicoativas tende a ser superior do que na população geral.

Percebe-se, com o escrito acima, que a diferenciação entre a causalidade dos sintomas psicóticos, ou seja, entre aqueles que foram realmente induzidos pelo consumo de substâncias daqueles que não foram propriamente induzidos pelas drogas, não é tarefa das mais simples.

Diagnóstico

O diagnóstico diferencial exige acompanhamento médico prolongado e abstinência total de quaisquer substâncias psicoativas. Frequentemente, aqueles que portam os sintomas psicóticos induzidos (e não primários) mostram uma melhor linha de pensamento (ou seja, melhor integridade da estrutura do pensamento), conteúdos menos bizarros dos pensamentos delirantes e, uma vez abstinentes das substâncias, cessação desses sintomas após um tempo variável.

Para se ter uma ideia da associação entre os dois problemas – uso de substâncias psicoativas e sintomas psicóticos -, pesquisas têm reiteradamente demonstrado que cerca de metade daqueles que buscam tratamento durante um primeiro episódio de sintomas psicóticos têm problemas com o uso de maconha e/ou álcool. E, além disso, durante o tratamento médico e psicossocial, a manutenção do uso de substâncias psicoativas está associada com o aumento da gravidade e da frequência dos sintomas psicóticos, com mais dificuldades no ajustamento social, com menor adesão ao manejo clínico e psicológico e maior necessidade de internações em hospitais ou clínicas especializadas.

Independentemente do tipo de transtorno psicótico, induzido diretamente ou não induzido diretamente pelo consumo de substâncias, este consumo não pode mais ocorrer de qualquer forma ou pretexto.

Os quadros psicóticos, sejam induzidos ou não induzidos pelo consumo de substâncias psicoativas, devem ser rigorosamente tratados por médicos especializados, dado o sofrimento clinicamente significativo do portador e as consequências danosas resultantes da ocorrência e recorrência destes sintomas.

Certamente, você deve estar sendo acompanhada por médico especialista. Converse abertamente com ele sobre possíveis recorrências dos seus sintomas e especialmente sobre essa sua atual dúvida a respeito do consumo de substâncias e tempo de permanência dos sintomas psicóticos.

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracteriza como sendo um atendimento.

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TAGS :

    cocaína, bala, maconha, psicose, abstinência

Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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